mentira

mentira

Marcelo Rubens Paiva

21 de novembro de 2012 | 11h36

Mentira maldosa mesmo viveu dona Odete, uma amiga da família.

Apaixonou-se por um geólogo, que conheceu num carnaval em Santos. Que trabalhava em prospecção de petróleo em alto mar. Com quem dançou, bebeu, se esbaldou e fez amor nas areias não iluminadas do Boqueirão.

Zé Álvaro fascinava, pois explicava com paixão os esforços para se extrair o líquido tão precioso onde jamais ninguém tentara. Falava da potência em que o Brasil poderia se transformar. E todo esse vocabulário, extrair, potência, camadas, perfurar, excitavam mais ainda Odete, que nem viu o Carnaval passar.

Foi só na quarta-feira de cinzas, quando teria de pegar um helicóptero para a plataforma marítima, que ele anunciou, envergonhado, porém sincero, que era casado.

Foi só na sua volta, semanas depois, que ela soube detalhes do quanto ele era mal casado, de que a esposa deprimida tentara se matar quando ele anunciou o fim do casamento, e de que continuava com ela até o único filho entrar na faculdade, pois tinha medo de que um ambiente emocionalmente complexo e desestabilizado pudesse atrapalhar os estudos e o futuro do menino.

Odete acabou novamente seduzida pelos encantos e lábia do geólogo, especialmente quando ele explicou detalhes da perfuratriz, prospecção, de como sugar e enfiar a broca, e se entregou numa pensão de José Menino.

Decidiu amar aquele homem até que a situação se definisse. Não o pressionou. Foi até fiel. Contou para poucos confidentes que se relacionava com um homem casado. Ouviu da maioria que ela deveria vazar o mais rápido possível. Não perguntou onde ele morava, nem como era a concorrente, nem se o filho ia bem na escola, tirara nota boa no Enem e estava decidido a seguir qual profissão.

Mas a pior das mentiras estava por vir. Um dos confidentes, também do ramo petrolífero, resolveu investigar mais detalhadamente a vida de Zé Álvaro, preocupado com a amiga, que se mudara para um flat no Gonzaga. Assombrado, decidiu contar pessoalmente o que descobriu:

“Ele não é nem nunca foi casado.”

O mundo desabou para Odete. Por que inventar toda aquela história, por que não assumir que era solteiro, livre, por que mentir durante tantos anos?

“Antes fosse casado”, repetia uma Odete abismada com a traição e decidida a nunca mais aparecer na Baixada Santista.

 

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E você pode aparecer no lançamento do livro AS MENTIRAS QUE A MULHER NÃO DIZ.

É sábado, 24/11, das 17h às 20h, no ESPAÇO PARLAPATÕES, Praça Roosevelt, 158, São Paulo.

É isso mesmo, sábado à tarde.

Depois do churrasco dos amigos ou da feijuca do bairro.

No começo, lerão crônicas, cenas e contos do livro os amigos:

ANTÔNIO PRATA, CAROL FAUQUEMONT, HUGO POSSOLO, MARCELO TAS, MARIA MANOELLA e MARIANA XIMENES.

Depois, abrimos o bar, e o sujeito aqui faz uns rabiscos, conhecidos como autógrafos.

Se a bebida descer direitinho.

Atenção especial a ANTÔNIO PRATA, o JOE PESCE brasileiro, que ensaia há uma semana com seu coach particular, cercados por esquilos e tucanos [que voam mesmo] da GRANJA.

 

 

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