Me exponho logo existo

Me exponho logo existo

Marcelo Rubens Paiva

20 de maio de 2014 | 17h37

Pawel Kuczynski

 

Invejo quem não tem celular. Existem e são admiráveis. São poucos. Estão em extinção. Quando precisam falar com alguém, ligam de um fixo.

Admiro pessoas que ligam do fixo. São econômicas. Sem contar que a ligação é clara e não cai.

Invejo quem não tem carro, nem carta ou carteira de motorista. Vai a lugares a pé, usa “condução” ou bicicleta, e volta de carona ou racha um táxi. Nunca soprou num bafômetro. Não estão em extinção.

Negam a revolução industrial. São pessoas mais econômicas e descomplicadas. Talvez por isso mais felizes.

E invejo quem não está no Face, Twitter, Insta, Linkedin, G+, WhatsApp, em lugar nenhum: o que não existe virtualmente, nunca “teve” Orkut e nem sabe o que é o extinto MSN.

São seres analógicos, mais evoluídos do que a maioria. Caminham, olham o nada ou algo sem a urgência de um registro fotográfico ou um comentário, uma curtida, uma postagem.

Mandam cartas e cartões postais escritos a mão. Negam a revolução tecnológica. Estão no topo da linha evolutiva.

Sim, existe gente que não se comunica, nem curte, nem posta. Não critica, nem milita, nem lamenta a morte de um ídolo para amigos, conhecidos, seguidores desconhecidos e amigos de amigos. Não se indigna, não se revolta, não se mostra. Não mostra seus gatos, seus pratos, sua mãe no dia delas. Nem relata suas viagens. Não pensa, não expõe, não se exibe para centenas ou milhares de pessoas. Logo, não existe? Nem o pôr-do-sol retrata. Nem a lua tem o seu momento. O que dirá de um nascer do sol? Existe?

Sobre os Guarani-Kaiowá, o alienado analógico não emitiu opinião em público, nem militou contra a sua extinção. Raquel Sherazade? Nem sabe quem é. Não entende por que algumas celebridades aparecem com cartaz escrito “bring back our girls”. Não lamenta para muitos a onda de linchamentos, o descaso com o dinheiro público, não cita Mahatma Ghandi, Caio Fernando Abreu, Nelson Rodrigues, Cazuza, Veríssimo, Renato Russo, Millôr.

Ainda não anunciou sua nova posição ideológica, nem em quem não vai votar, não elogiou a simplicidade de José Mujica, o presidente uruguaio, não se revoltou contra a perseguição a gays e garotas da banda Pussy Riot na Rússia, não riu das barbeiragens que eles, os russos, bêbados, praticam nas estradas, nem comentou que no Rio de Janeiro se diz “bandalha”, não barbeiragem, ou transgressão.

Não postou fotos do carro sem permissão na vaga de deficiente, do prefeito de Londres indo de bike pro trabalho, do primeiro-ministro do Reino Unido indo de metrô pro trabalho, do príncipe William flagrado na classe econômica como um plebeu. Não viu o comercial que todos devem ver, o vídeo a que todos devem assistir, a foto que vai fazer as pessoas pensarem de outra maneira, fotos que vão mudar a vida, a rotina, a forma como trabalhamos, do animalzinho que quer apenas ser amado, do outro que ao invés de devorar a presa cuida dela.

Não soube da cidade que DEVE visitar, do livro que DEVE ler, do filme que DEVE ver, do clipe que TEM que assistir, do hotel em que um conhecido ficou para ser invejado, da nova banda de que TODOS estão falando, da criança que surpreende e faz algo incrível e inesperado, que prova como existe inteligência em quem menos se espera. Não leu sobre o alerta contra golpes praticados, a torcida para que não haja Copa, que algum repórter internacional falou (mal) de nós, sobre o complexo de vira-lata que temos, e que a unanimidade é burra.

Não viu a foto de uma flor que desabrochou numa selva de pedras, a piada, a gostosa, a amiga fazendo biquinho, a amiga fazendo cara de sexy, a lista do que difere os homens das mulheres, as últimas sobre maconha, as fotos da repressão policial brutal, de como era antigamente, o filme raro encontrado, bons exemplos feitos por pessoas altruístas, enquanto o acomodado só reclama, a denúncia contra maus tratos contra animais, o poema, a charada, o superatleta que faz coisas com uma incrível habilidade, voa sobre abismos, pedala sobre montanhas, a ilusão de ótica que faz bolinhas se moverem e que parece mágica, o pedido de que “alguém tem que fazer alguma coisa”, as provas de que houve a realização de um sonho, o astro com uma banana na mão. Nem descobriu que alguns amigos têm opiniões aterradoras.

Pensar que há dez anos não existiam redes sociais.

Há 20, a internet não era regulamentada, nem existia o consórcio W3C (World Wide Web Consortium).

Há 30, não tinha celular nem computador pessoal no Brasil.

A maioria não tinha telefone nem máquina fotográfica.

E éramos bem informados e educados.

Militávamos contra a possível extinção de uma nação indígena, protestávamos contra linchamentos e o descaso com o dinheiro público, líamos Mahatma Ghandi, livros de Caio Fernando Abreu, Veríssimo e Millôr, comprávamos discos do Cazuza e Renato Russo, anunciávamos nossa posição ideológica em bótons, broches e pins na jaqueta, víamos o comercial que todos deviam, sabíamos do livro que DEVÍAMOS ler, do filme que DEVÍAMOS ver, da nova banda de que TODOS estavam falando, do “complexo de vira-lata”, cria do Nelson Rodrigues (cujas peças assistíamos) em maio de 1958, meses antes do Brasil ganhar a primeira Copa do Mundo, numa crônica publicada na Manchete Esportiva, relembrada por Ruy Castro no livro Os Garotos do Brasil (Foz).

Víamos fotos da repressão policial brutal, desvendávamos a charada, o poema, a ilusão de ótica que faz bolinhas se moverem, no livro de ilusões de óticas que todos tinham.

Éramos mais discretos.

Menos ansiosos.

Não precisávamos da aprovação alheia.

Não precisávamos chamar tanta atenção, nem criar a ilusão de que somos melhores do que somos.

Somente éramos.

 

+++

 

Juliana Sayuri entrevistou para o caderno ALIÁS o grande filósofo Michel Maffesoli, ou melhor, antropólogo urbano, nosso teórico favorito dos anos 1980, da pós-modernidade.

Que agora tem 69 anos e anda mais lúcido do que nunca – diretor do Centre d’Études sur l’Actuel et le Quotidien (CEAQ) da Université Paris Descartes – Sorbonne.

Vale a pena.

Aqui, o pingue pongue entre os 2:

Qual é o papel das mídias sociais na pós-modernidade?

Podemos dizer que, na pós-modernidade, as mídias estão se tornando mais e mais importantes, especialmente as chamadas “mídias sociais”. Lembremos Hegel, que dizia no século 19: a leitura do jornal é a oração do homem moderno. Podemos pensar que as mídias interativas serão a oração do homem pós-moderno. Contrariamente às críticas tradicionais, porém, acredito que essas mídias favorecem a mediação, isto é, a relação e a inter-relação entre as pessoas. Se a modernidade, particularmente no seu momento final, viu o triunfo da “multidão solitária”, a pós-modernidade nascente verá se desenvolver uma multiplicidade de novas tribos urbanas, cuja essência é o relacionismo.

Com os avanços tecnológicos, nós estamos observando a emergência de uma geração ‘selfie’?

Certamente o selfie está no ar. Entretanto, na minha opinião, essa mise en scène de si mesmo não é, como se costuma dizer, o símbolo de um aprisionamento de si. Nessa perspectiva, discordo dos teóricos que abordam abusivamente o narcisismo. Prefiro dizer que os selfies compõem a forma contemporânea da iconofilia. Assim, podemos indicar um narcisismo tribal. Isso quer dizer que, ao difundir essas fotografias, nós pretendemos nos posicionar em relação aos outros da tribo. Se traçarmos um paralelo com uma imagem religiosa, o selfie tem uma finalidade sacramental, que torna visível a força invisível do grupo. O que me liga aos outros da minha tribo? Nós nos definimos sempre em relação ao outro. Assim, o fenômeno tribal repousa essencialmente no compartilhamento de um gosto (sexual, musical, religioso, esportivo, etc.). É preciso dizer que essa “partilha” cresce exponencialmente com o desenvolvimento tecnológico.

Nas mídias sociais, publicamos ‘selfies’ sempre felizes. Somos tão felizes? Ou filtramos nossos retratos justamente para esconder nossas angústias atuais?

De fato, as mídias sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc.) tendem a dar uma figuração feliz de nós mesmos. Certamente não estamos sempre felizes. Mas há aí um movimento de pudor: nós tendemos a dar à tribo, ou às diversas tribos às quais pertencemos, imagens reconfortantes de nós mesmos. No entanto, historicamente, é preciso lembrar que os quadros e as esculturas, as imagens próprias a todas as civilizações destacaram essencialmente essa figuração de felicidade. Os últimos livros de Michel Foucault (História da Sexualidade: O Cuidado de Si e História da Sexualidade: O Uso dos Prazeres) mostram que isso marcou a Grécia e a Roma antiga. Foi o caso também na Idade Média. Para resumir em uma expressão: isso traduz um “pudor antropológico”, que é um elemento essencial do viver em sociedade.

Há quem argumente que a tecnologia está nos tornando antissociais. Temos muitos amigos no Facebook, mas estamos mais solitários?

Contrariamente aos críticos que sublinham o isolamento crescente, que seria característico das megalópoles pós-modernas, considero que a multidão solitária – na minha expressão, a solidão gregária – é uma das especificidades da modernidade decadente. Paradoxalmente, o desenvolvimento tecnológico não nos direciona ao antissocial. Tende, ao contrário, a consolidar essa mise en relation – no seu sentido forte e etimológico, o comércio das ideias, dos bens, dos afetos. É evidente que o termo “amigo” particularmente no Facebook não pode ser reduzido à concepção de amizade clássica, feita de relações intensas e recíprocas. Entretanto, a multiplicidade de amigos nos permite saber, se necessário for, onde e com quem manter relações sociais. E uma das pistas que será preciso estudar sobre o desenvolvimento tecnológico próprio às mídias sociais é a emergência de novas formas de generosidade e de solidariedade, nas quais os uns e os outros são causa e efeito de uma “horizontalização societal”.

Divulgado nos últimos dias, um estudo da OMS mostrou que a depressão é a principal enfermidade entre os jovens. A vida virtual e a fragilidade das relações ‘tête-à-tête’ teriam impacto nessa geração?

É preciso ter bastante cuidado com os diversos estudos institucionais focados principalmente no campo da saúde, que tendem a dizer que a depressão é a doença específica das jovens gerações. Valeria questionar se essa depressão não é característica das gerações no poder, quer dizer, das próprias gerações que comandam esses estudos e que talvez, num processo de compensação como destacou o psicanalista Carl Gustav Jung, tendem a projetar ao exterior o mal-estar que nós mesmos sofremos.

Há tempo para contemplação do mundo atualmente?

No livro A Contemplação do Mundo, tento demonstrar que a tendência geral da pós-modernidade, perceptível particularmente nas jovens gerações, consiste menos em querer mudar o mundo – e mais em se acomodar ao mundo. Adaptar-se, ajustar-se a ele. Isso pode nos conduzir a evitar a devastação, cujos “saques” ecológicos são exemplos cotidianos. Com o sociólogo italiano Massimo De Felice, no Centro de Pesquisa Atopos da Universidade de São Paulo (USP), tentamos justamente desenvolver pesquisas sobre essa “ecosofia”. Acredito que é assim que precisamos compreender o “ritmo da vida”, isto é, pensar a existência a partir de um ponto fixo – a natureza, o território –, todos os elementos que fazem com que o ambiente social dependa do ambiente natural. Se a modernidade foi um pouco paranoica, levando à dominação e à devastação do mundo, na pós-modernidade uma nova sabedoria está em gestação.

Por fim, a tecnologia é um meio? Ou uma mensagem?

É habitual considerar que, com a prevalência de um racionalismo exacerbado, a tecnologia moderna contribuiu para um desencantamento do mundo. No entanto, na minha opinião, é paradoxal observar que, atualmente, esse desenvolvimento tecnológico, especialmente nos seus usos sociais, nos direcionam a um reencantamento do mundo. Nessa perspectiva, as mídias sociais são ao mesmo tempo um meio e uma mensagem, que confortam a vida em sociedade. Se a modernidade se firmou a partir de um princípio individualista, a tecnologia pós-moderna abriga um relacionismo galopante – uma relação, como frisei, entre nós e os outros.

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