Marighella e Carmo

Marighella e Carmo

Marcelo Rubens Paiva

06 de novembro de 2009 | 13h42

Enfim, uma homenagem.

O Memorial da Resistência de São Paulo apresenta a exposição Marighella, em memória aos 40 anos da morte do guerrilheiro comunista, ícone do combate à ditadura militar no Brasil.

Abertura amanhã. Fica até 25 de maio.

No Largo General Osório, 66 – fone 11/3335 4990

A mostra uniu tucanos e lulistas. É patrocinada pelo GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, PETROBRAS, CESP e SECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS.

Busca traçar o perfil e a trajetória de vida do baiano Carlos Marighella, morto numa emboscada em 1969, na Alameda Casa Branca, região dos Jardins, organizada pelo temível delegado Paranhos Fleury.

Ela tem cartas, livros, imagens de arquivo, iconografia variada, depoimentos, além de textos e poemas do próprio Marighella.

A exposição fala da infância na Bahia à guerrilha urbana em São
Paulo, em que liderou mais de mil militantes da ALN, organização fundada por ele, e que tinha uma rede enorme de simpatizantes e apoio, e tinha o aval de FIDEL, para organizar a guerra revolucionária no Brasil.

Alguns dirão que não passava de um facínora comunista, que assaltava bancos, para arrecadar fundos para a guerrilha, sequestrava embaixadores e instalou o terror.

Muitas das ações da ALN são questionáveis, como execuções e o notório e bem-sucedido sequestro do embaixador americano- neste caso, consta que Marighella foi contra e só soube depois de a ação estar em andamento.

A ação foi o momento da virada, quando antes a ALN ganhava todas, e uniu a repressão, alimentou a união entre polícia e sociedade civil, que deu na OBAN e depois no DOI/Codi.

A ALN atuava em grupos táticos semi-independentes. Seguia à risca o MANUAL DO GUERRILHEIRO URBANO, escrito pelo próprio, que se tornou um best seller na EUROPA e foi o manual base das organizações clandestinas de esquerda de lá.

Porém, a ALN nunca conseguir fugir do esquema assalto-expropriações-clandestinidade-vida em aparelhos-medo de denúncias-assaltos.

A direita dirá que teria sido muito pior se Marighella fosse bem-sucedido e instalasse um regime comunista no Brasil.

Porém, um paradoxo: ele lutou em regimes ditatoriais. Uniu estudantes e trabalhadores sob a bandeira da revolução, da UTOPIA. Pegou em armas e recebeu apoio de parte da opinião pública e intelectuais, e se tornou um mártir na luta contra a ditadura.

No mais, alguém tinha que fazer alguma coisa. Combater, fugir ou se calar?

Não se pode ver Marighella com os olhos de hoje, quando se comemoram os 20 anos da queda do Muro de Berlim. E não se deve ter receio de lê-lo, homenageá-lo e repensar a história desse País, que viveu séculos de instabilidade política e domínio da elite agroindustrial.

Já na Era Vargas ele era perseguido. Foi para a clandestinidade ainda em meados de 1930 e preso. Foi eleito deputado federal pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) e cassado em 1948. Rachou com o partido, que era contra a luta armada, e tomou o caminho da guerrilha.

Uma das surpresas da mostra é justamente a vitrine de textos inéditos de Marighella. Outro destaque é um vídeo com depoimentos de personalidades como Oscar Niemeyer, Antonio Candido e Armênio Guedes.

A curadoria é do jornalista Vladimir Sacchetta.

Marighella era a composição do brasileiro: filho de um imigrante italiano com uma mulata, descendente de escravos africanos. Estudou no curso de Engenharia da Escola Politécnica de Salvador.

Em 1936, no Rio de Janeiro, atuou na reorganização do PCB, depois da repressão desencadeada com o levante de novembro de 1935. No mesmo ano, foi preso e torturado. Em São Paulo, durante o período do Estado Novo, foi novamente preso, e desta vez condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional. Permaneceu quase seis anos em Fernando de Noronha (PE) e na Ilha Grande (RJ).

Foi libertado com anistia concedida por Getúlio Vargas. Em 1945, foi eleito deputado federal constituinte pela Bahia. Na década de 60, fora do PCB, criou a ALN (Aliança Libertadora Nacional) e partiu para a luta armada.

Há 40 anos, em 4 de novembro de 1969, foi assassinado em São Paulo. No dia 11 de setembro de 1996, por 5 votos a 2, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça reconhece a responsabilidade do Estado pelo assassinato de Carlos Marighella

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E não é que o filme CARMO [falo dele mais abaixo], do meu amigo MURILO PASTA, que usou a minha cadeira de rodas manual nas filmagens, a que rodou o mundo e esteve sob mim por quase duas décadas, ganhou o prêmio de PÚBLICO na MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA de SÃO PAULO?

Foi votado pela audiência o melhor longa do festival.

Quem ainda não viu, CARMO vai ser reprisado pela Mostra SÁBADO (amanhã) às 8 DA NOITE NO CINE BOMBRIL no Conjunto Nacional na Paulista.

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