manual prático do fila boia

manual prático do fila boia

Marcelo Rubens Paiva

09 de novembro de 2010 | 12h51

Oswaldo, o amigo de colégio, filósofo, me conta que escrevi há décadas no seu mural:

“Marcelo ama resto”.

Lindo… Mas não tenho a menor ideia do que significa.

Algumas interpretações metafísicas possíveis: “o foco não me interessa, mas sim o que escapa pelas bordas”; “o sol aquece pelo reflexo, não pela luz”; “prefiro a última do lado B”; “olhe e admire a mais bonita, mas repare naquela mais interessante sentadinha no canto e interaja com ela”; “existe arte no rascunho”; “a beleza está no erro”.

Espere!

Investigando mais esse Marcelo de décadas atrás, estudante duro, lembrei: o cara, eu, almoçava em casas de amigos e parentes que estavam na rota da USP.

Oswaldo morava no Butantã.

Talvez Marcelo fizesse um pitstop proposital bem na hora do rango e se satisfazia com a sobra.

Marcelo amava o resto do almoço da família de Oswaldo?

Um fato: Marcelo amava filar boia.

Outro: Marcelo era folgado.

Ele (eu) tinha uma rede de fornecedores de rango caseiro.

Voltando da faculdade, calculava quem estaria almoçando, denominado “a vítima”. E aparecia.

Claro que o ataque ocorria no front de lares bem estruturados, com empregadas, rotina alimentar etc.

Na casa do meu primo Ricardo, eu sabia: quinta era dia de feira, portanto, a mesa estaria com frutas e verduras.

No Olhar Eletrônico, antiga produtora do Fernando Meirelles, com quem trabalhei, o almoço era dos mais disputados entre os filadores profissionais. E pontual.

Na casa do Maurício, roteirista e diretor de TV, o cardápio era único: arroz, feijão, bife à milanesa e batata frita.

Todo santo dia. O suco era laranjada (suco de laranja mais água e muita açúcar). Uma vez por semana, eu aparecia.

Era um rango bom, mas de colesterol alto. Portanto, aprendi, é preciso equilibrar dietas e balancear visitas. Casa com colesterol alto, uma vez por semana.

A construção da rede gastronômica caseira do pão-duro começa pelas empregadas.

Fundamental ganhar simpatia e compaixão.

Porque em muitas vezes que se chega de surpresa bem na hora do rango o patrão ou patroa está no banho, e são elas quem nos fazem companhia e, o mais importante, abrem a porta.

Em segundo lugar, é fundamental ampliar a amizade com a família da vítima. Porque você pode aparecer sem a presença do amigo.

Quando Estela parou de almoçar na casa da sua mãe na Cidade Jardim, pois se casou e se mudou para Higienópolis, sem problemas, continuei aparecendo para almoçar com a caçula Renata, para a alegria das empregadas, íntimas já.

E dos cães.

Outra prática importante: ganhar a amizade dos animais de estimação, pois, se implicarem com você, perde-se a boquinha.

Por outro lado, se fizerem festa quando você chega, beleza, comida garantida por um tempo.

E se o gato se sentar no seu colo então, você já é da casa.

Esqueça amigos metidos a gourmets. Você só irá almoçar lá pelas 15h.

É preciso ser objetivo, sem parecer oportunista: chegar e papear. O bicão, como o carona, tem um preço a pagar: umas piadas a contar e uns assuntos relevantes a levantar. Lógico, não levante polêmicas desnecessárias e conheça a ideologia do amigo.

Não vá elogiar a política social do governo Lula na casa de um tucano. No máximo, pergunte se não teria sido melhor o PSDB ir de Aécio.

Almoçar com um amigo que cozinha é pra fim de semana, em que a agenda é mais flexível.

Tem outra. Amigo gourmet sempre te coloca pra picar cebola ou descascar batatas. E outra. Amigos gourmet experimentam receitas nova com o bicão. Pode ser um desastre.

Uma casa em que se pode comer bem e rápido é na de ex-mulher.

É rápido, porque afinal ela tem outro, que tem ciúmes exatamente de você.

Ela cozinha melhor, porque mulher quando te larga sempre fica mais gata, mais magra, mais interessante e cozinha melhor. E ela sabe exatamente como você gosta do café. É claro que você esqueceu que ela gosta sem açúcar. Rola neste ínterim um diálogo rico e emocionante como:

“Você está saindo com alguém?”

“Com a sua prima.”

“Que legal! Você gosta dela. Não pise na bola, não seja ranzinza, nem maleta.

Se você estiver inseguro, não agrida. Fale, conte, chore, sei lá, mas não

seja grosso. Não desconte. Desculpa a sinceridade. Nem sei se você queria esse tipo de comentário. Você é muito exigente com você e com os outros. Se você se deixar levar, ficar mais largado, menos exigente com você mesmo, se cobrar menos, talvez admita bobagens dos outros. Já eu não tenho filtro entre o que eu penso e o que falo. Me arrependo pacas. Mas aí eu já falei. E fico me remoendo.”

“Já que estamos nos abrindo… Não acho que seu problema seja falta de filtro.

Você é muito sensata. Isso é o que eu mais gostava em você. Além do corpinho que Deus lhe deu.”

“Que amor…”

“Seu problema é…”

“Falo demais? Tá na mesa. Você quer pimenta?”

“Você emagreceu, sua pele melhorou, seus cabelos, então…”

Elogie! Para garantir o retorno.

Já que o atual só a critica, como você, quando era “o atual”.

Sim, com a mãe ou irmãos só se almoça aos domingos.

Você não irá desperdiçar uma tarde de dia útil discutindo problemas familiares, vai?

Faltou dizer que Marcelo já há dez anos faz feira, supermercado e tem uma cozinheira ótima.

E almoça em casa quase todos os dias.

Virou vítima.

Não vem folgar.

Avise antes…

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: