Manual do casamento – cinema

Manual do casamento – cinema

Marcelo Rubens Paiva

20 de maio de 2009 | 20h44

Uma forma que encontraram para evitar longas discussões: alternam o papel de quem escolhe o filme e o restaurante.

Num fim de semana, ele quem escolhe. Geralmente filmes de guerra, policial ou terror. Todos violentos. Todos com cenas de perseguição. Todos com heroínas loiras. Os protagonistas têm tríceps, bíceps e deltóides bem trabalhados. Barba bem feita, seguram um revólver com intimidade. Viajam de primeira classe. As traições são resolvidas na porrada. A vingança se faz com um tiro na cara. Sempre há maletas de dinheiro. No final, estão sorridentes e bem acompanhados numa lancha ou no jatinho particular.

São grandes produções, todas nomeadas a algum Oscar técnico: efeitos especiais, montagem, edição de som, maquiagem.

O casal chama de filme de menino. São exibidos em salas enormes, as maiores do shopping, com tecnologia de ponta na compra de ingressos, poltronas, imagem e som digital. Até os estacionamentos têm guaritas com cancelas automáticas, daquelas que falam sozinhas. Só o preço do ingresso incomoda. Pagaria um combinado duplo num japa de respeito, sem modismos.

Mas ela não reclama. Até sugere o jantar num fast food da praça de alimentação, para compensar o preju. Na saída do cinema, encontram o dentista, filhos de amigos, a secretária da firma e o ex-namorado surfista dela, e uma ex dele de que nem lembrava do nome.

No outro fim de semana, ela quem escolhe o filme. Geralmente foram premiados no festival de Cannes, Veneza ou Berlim. Têm bons roteiros, diálogos inteligentes e atores magros e pálidos. Não dão um tiro durante todo o filme. Os finais são em aberto. E ele sempre pergunta pra ela o que, afinal, aconteceu.

São filmes multiculturais. Discutem preconceito e tabus. Certamente, falam da relação amorosa e dos seus caprichos. Falam de pais e filhos, de amantes. As traições são resolvidas com muito papo. Há referências históricas.

São falados em espanhol, francês, árabe ou chinês. O enredo gira em torno de dilemas existenciais. Nos créditos, agradecem a vários institutos e parcerias. Não há uma distribuidora de peso por trás. Os logos das produtoras são cheios de riscos. Há cenas longas, escuras, filmadas por uma câmera que teimosamente não sai do lugar. Os personagens não se vingam, conciliam-se. E estão sempre duros. A maior ambição é a paz e o amor. Viajam de classe econômica. Ou de trem.

O casal chama de filme de menina. São exibidos em salas pequenas, em que vaza o som do projetor, cinemas que parecem cineclubes, onde estacionam na rua, e cuja pipoca é amadora- fria e mole-, e as poltronas seguem uma moda retrô.

Na saída, encontram o terapeuta dela, o professor da facu, colegas da ioga e um primo distante dele que tem fama de maníaco-depressivo e viciado. Ao menos, sobra dinheiro para tomarem um saque californiano no japa em questão.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.