Manoel de Barros ocupa a Paulista

Manoel de Barros ocupa a Paulista

Marcelo Rubens Paiva

07 de fevereiro de 2019 | 09h12

O menino “ligado em despropósitos” de Desprezo, no Pantanal do Mato Grosso, “um apanhador de desperdícios”, foi parar em dois monumentos da Avenida Paulista.

O Itaú Cultura abre em 13 de fevereiro a mostra Ocupação Manoel de Barros (grátis).

Com textos, manuscritos, vídeos e fotos do “homem que permaneceu menino até a velhice”.

“Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades.”

A seis quadras dali, o palco do Teatro do Sesi-SP se transforma em Desprezo, a vila imaginária em que o garoto que “usava a palavra para compor seus silêncios” cresceu, ganhou de aniversário um rio, enquanto o irmão, uma árvore cheia da pássaros, passou a infância intrigado com a habilidade de uma taturana decepada como um trem descarrilado se recompor, e a partida de futebol em que as traves eram pedras, e o rio, a linha divisória.

“Não sou bom entendedor das coisas grades. Mas… menos ainda, das coisas pequenas.”

O “mas” sutil, com a pausa, dá a grandeza do poeta e da atriz que o declama: Barros e Cássia Kiss.

Com a direção de Ulysses Cruz (que bom, tem voltado ao teatro depois de uma temporada enfurnado na TV), Cássia interpreta da infância à velhice o magistral poeta da coisa pequena.

O nome da peça, pontuada pelo músico e compositor Gilberto Rodrigues, resume bem o pano de fundo: Meu Quintal é Maior do que o Mundo.

Fica em cartaz de sexta à domingo até 17 de fevereiro (também é de graça).

São 18 textos que, interligado, soam biográficos e cronológicos: o menino, o homem e o velho.

Manoel Wenceslau Leite de Barros, quando garoto, foi apelidado de Cuiabá, cidade em que nasceu em 1916. Mudou-se para Corumbá, onde morou numa fazenda no Pantanal.

O pai o queria doutor: engenheiro ou advogado. Tornou-se um estudioso das palavras, artes plásticas e cinema (chegou a estudar no MoMA de Nova York).

Resultado: 18 livros de poesia, além de livros infantis e relatos autobiográficos, dois prêmios Jabuti, duas vezes o Prêmio Nestlé, prêmio da Academia Brasileira de Letras, Biblioteca Nacional e pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

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