Mais do que uma Parada

Mais do que uma Parada

Marcelo Rubens Paiva

24 de junho de 2019 | 09h45

Marcha da Família com Deus pela Liberdade, Passeata dos Cem Mil, pela Anistia, Diretas Já, Caras Pintadas, comemorações de 1 de Maio, Impeachment de Dilma, protestos contra cortes na Educação ou a reforma da Previdência, a favor dela?

A Parada LGBT de ontem (dia 23) em São Paulo entra para a história: foi a maior manifestação política já registrada.

Que mobilizou a cidade por dias, lotou hotéis, cinemas (especialmente sessões do novo Almodovar), teatros, bares, como nunca se viu antes.

Três dias depois da Marcha para Jesus 2019, que contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro.

Ah, mas foi uma micareta, não um protesto…

Não se iluda.

Quem cruzou de metrô num dia de sol magnífico e calor a cidade, com as cores do arco-íris no figurino, montada(o) ou não, passou pela região da Paulista, não estava indo apenas a uma celebração, os 50 anos da Revolta de Stonewall (símbolo do movimento LGBT), ou festejar a criminalização da homofobia pelo STF.

Estava para reafirmar sua opção sexual, a liberdade, tolerância, defesa pelas diferenças e orgulho de ser o que é.

Se um presidente calhado pelo discurso homofóbico e misógino acaba de ser eleito para governar para a maioria, não a minoria, como afirma, parte da população foi às ruas para questionar com que direito o Estado pode interferir na sua preferência sexual?

O metrô era uma festa. As ruas ondulavam. Cores transbordavam. A ousadia predominava.

Cada um(a) foi do jeito que quis. Dançou como quis. Fez o que quis.

Sim, eles sabem festejar e protestar como poucos, sempre souberam.

O simples fato de estarem visíveis, assumidos, fora dos esconderijos, andando de queixo em erguido, nas padarias, bares, calçadas, busões, apesar dos pesares, da violência e do ódio contra eles, os vilões de uma campanha difamatória, já é um gesto político.

Se em alguns protestos, marchas e severidade, no deles, trios-elétricos e alegria.

Cada um protesta com o que tem e pode.

Escrevi aqui, horas depois de abertas as urnas do primeiro turno de 2018:

“Apesar de você, as cores do arco-íris continuarão as mesmas, ele sempre estará entre o céu e a terra, continuará lindo a nos emocionar. Mulheres continuarão a desejar mulheres, homens se beijarão e se amarão: o amor não tem limites, o desejo não tem barreiras. A composição familiar nunca mais será a mesma. Os jovens não deixarão de mudar padrões, quebrar regras. O amor vencerá a bala. A Inteligência sempre vencerá a burrice.”

Apesar da onda conservadora, avanço fundamentalista, governo evangélico e bélico, lésbicas, gays, bissexuais e trans não deixarão de sê-los.

E de se orgulharem.

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