Macropolítica de Game of Thrones

Macropolítica de Game of Thrones

Marcelo Rubens Paiva

19 de maio de 2019 | 23h45

A bandeira de todos os líderes é libertar os escravos, chegar a um mundo livre, utopia. Mas o limite dessa luta é muito próximo ao da  aniquilação total. Ela trouxe a destruição de Dresden, Hiroshima, Nagasaki, viu-se Guernica, e do que a Humanidade é capaz. Como a destruição de Porto Real.

Um dos segredos sucesso de Game of Thrones está no fato de se tratar de temas atuais e historicamente redundantes com ares de ficção medieval.

O dilema da rainha Daenerys, que nem chegou a se sentar no trono, foi o de todas as revoluções (Francesa, Russa, Cultural Chinesa): deve-se implementar um regime de terror para liberar o povo? Um tirania justifica outra? Dany, assim, como Júlio Cesar, Danton e Trotsky, foi sacrificada.

A crise da representatividade, simbolizada na crise da governabilidade, é o plot principal da série: em debate a popularidade e governo.

A tirania, ou o autoritarismo, é a única saída para a paz, enquanto as democracias andam em crise?

No mais, por que os reinos têm que se unir num bloco só (Comunidade Europeia, Nafta, Mercosul, Pacto Andino, OTAN), como os Sete Reinos? Países, reinos, crescem mais e se desenvolvem se unidos?

Blocos, sim, são necessários, para competirem entre si. Para os Sete Reinos, a união era necessária, já que os White Walkers eram o inimigo (bloco)  comum de toda a espécie. Se os vivos foram vitoriosos contra os mortos, para que continuarem unidos?

Por que um rei, se podemos escolher o líder, que se reveza? Questão levantada no fim do absolutismo. E no final da série.

Paz alcançada, para que Inglaterra deve se unir à França, Alemanha e Itália, que quase se destruíram no século 20? Questão levantada pelo Brexit. E o Reino no Norte continua independente, como o Reino Unido, com sua rainha própria, Sansa Stark? E o que tem depois dos mares? Questão levantada pela Renascença.

Com o colapso da URSS, por que a Europa do Oeste precisa se unir? E para que serve a OTAN, grande questão levantada pelos russos, se eles não têm mais ascensão política e militar sobre os países do Leste Europeu?

É preciso de uma muralha para separar Estados Unidos do México?

E os movimentos separatistas? A Espanha estaria melhor com a Catalunha e Países Bascos fora do reino?

É necessário um excedente militar, uma arma nuclear, ou um dragão, que torna os combates desproporcionais, para se chegar a um entendimento?

Se muitos diziam que o mundo dividido em blocos, sentados sobre ogivas nucleares nas pontas de mísseis, era a forma de se acabar com o abuso e a insanidade de guerras mundiais, sentar-se sobre dragões também pode trazer paz.

É bíblico: estamos sempre na balança entre o apocalipse e o paraíso.