Lucky guy

Lucky guy

Marcelo Rubens Paiva

05 de janeiro de 2010 | 01h06

“Tio Marcelo é Lucky!”

Foi a frase dita pelo meu sobrinho Chico, quanto tinha uns 8 anos, e morávamos na Califórnia [EUA], no mesmo bairro- perto do estádio da Universidade de Stanford.

Disse ao me ver correr para o meu apê, que era mais perto do que a casinha dele; enquanto ele teria que andar mais alguns minutos.

Chico já morava lá um ano antes de mim com o irmão Juca e os pais.

Aliás, fui parar lá graças a eles, que souberam de uma bolsa para escritores e jornalistas, me mandaram os formulários, me apliquei e ganhei.

Coincidentemente, ofereceram pra mim um apê no mesmo bairro deles, Escondido Village.

Eles moraram 4 anos lá. Eu e a Adriana, a santa que me aturou por 9 anos, na fase mais heavy da minha vida, se é que você me entende [mergulhei fundo nas virtudes e defeitos daquela década], 1 ano.


EU E ADRIANA NO MOJAVE DESERT, 1995

Assim que cheguei, comprei uma van adaptada e peguei uma licença para parar em vagas de deficientes, todas próximas das entradas dos supermercados, cinemas, teatros, shoppings.

E em estádios e ginásios, não pagava e ainda ficava no melhor lugar. Com direito a acompanhantes.

Aquilo deixava meus sobrinhos fascinados. Tio Marcelo, sim, que era sortudo.

A frase paradoxal virou um slogan na família. Tio Marcelo é Lucky!

E, em viagens, fura filas, não paga museus, para nas melhores vagas e ainda pode levar um acompanhante.

No Louvre, em Paris, agora no fim de ano, com a família, tio Marcelo provou o quanto é lucky.

Meu sobrinho Juca insistiu para vermos a Monalisa. É dele outra frase que move a minha família, dita quanto ele tinha 3 anos: “Todo mundo junto que é bom!”

Não era a primeira vez no Louvre de muitos de nós, sabíamos do mico que é ver o quadro com dezenas de turistas se apertando. Eu mesmo já tinha visto há duas décadas.

Mas, em viagens, devemos sim pagar micos. A graça é essa. E cumprir alguns rituais. Ver a Monalisa é um deles.

Enfiei a minha cadeira de rodas com parte da família atrás. Fomos abrindo espaço por entre turistas mais interessados em fotografar do que admirar o sorriso tão peculiar da Gioconda.

Tive que esperar uma família de espanhóis fazer fotos para eu passar. Eu empurrava turistas. Uma alemã enorme se recusava a me deixar passar. Até o segurança do museu me acudir e apontar: “Você pode ficar ali”.

O ali era o espaço vago entre a massa e o quadro. Tive por minutos a Monalisa diante de mim. Apenas para mim.

TIO MARCELO NÃO É LUCKY?
Mas achei o quadro tão opaco…
As reproduções são melhores [sintoma do pós-modernismo].

O ano começou bem para ele.

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