Liberdade de expressão, vírgula

Liberdade de expressão, vírgula

Marcelo Rubens Paiva

28 de setembro de 2015 | 11h53

 

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Na Constituinte do Brasil redemocratizado, que deu na nova Constituição de 1988, o mais esperado e comemorado artigo foi o 5º., que garante a liberdade de expressão.

Depois de anos de censura absurda, política ou de costumes, que atacava revistas e jornais, teatro, cinema e música, regime cujo departamento da Polícia Federal decidia o que os brasileiros podiam ou não ver, imaginávamos que a liberdade, essência de uma democracia, tinha enfim chegado.

A notícia de que A GLOBO resolveu adiar a próxima novela SAGRADA FAMÍLIA [título provisório], de MARIA ADELAIDE AMARAL, pareceu normal e até um alívio para a emissora.

Mas não é para o país.

Prova de que alguma coisa está errada nas nossas leis prioritárias.

Silvio de Abreu, o novo diretor de dramaturgia da casa, anunciou: “A novela da Maria Adelaide é muito boa e traz uma trama política que poderia ficar prejudicada por causa das eleições do ano que vem”.

Uma trama política que substituiria a trama atual, A REGRA DO JOGO, em 2016, não é bem-vinda justamente quando uma democracia vive o seu ápice, o processo eleitoral.

Não é a trama que é inconveniente, nem a emissora está errada.

É a democracia que está adulterada.

“Como o Brasil tem uma legislação eleitoral muito rígida, a partir do início de junho teríamos que eliminar essa trama da novela, porque entraríamos no período em que não se pode falar de política. Achei que seria um desperdício fazermos isso”, concluiu Abreu.

Justamente no ano em que um processo eleitoral festeja a democracia, não se deve falar de política.

Teme-se uma rígida Lei Eleitoral que então entra em conflito com o artigo 5º da Constituição.

Ora, muda-se a lei, para que a liberdade de expressão fique garantida.

No mais, caros: é apenas dramaturgia…

Claro que a GLOBO tem o direito de evitar prejuízos num país em que a legislação se contradiz.

Mas se compararmos à TV que se faz lá fora, conclui-se que estamos tolhidos.

Paradoxalmente, na época ditadura, fomos até mais ousado com SARAMANDAIA, BEM-AMADO, ROQUE SANTEIRO…

Enfrentava-se a censura.

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