L’enfer

L’enfer

Marcelo Rubens Paiva

20 de maio de 2010 | 11h43

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O INFERNO DE HENRI-GEORGES CLOUZOT

O filme está em apenas 1 cinema de São Paulo [Reserva Cultural].

Logo, logo, sairá de cartaz. Corra.

É um documentário genial sobre a fracassada produção do maior cineasta francês dos anos 40 e 50, pré-nouvelle vague.

De O Corvo, O Mistério de Picasso e As Diabólicas. Casado com uma brasileira [VERA CLOUZOT]

Em 1964, Clouzot começou a filmar O INFERNO, uma produção financiada por americanos [COLUMBIA], de quem recebeu carta-branca, com um orçamento astronômico.

Contaria a história de um gerente de hotel de Provence [Serge Reggiani], de mais de 40 anos, que se casa com uma deusa de 26, Romy Schneider, e passa a desenvolver um ciúme doentio, tal qual DOM CASMURO.

O hotel enche de turistas a fim de curtir as férias diante do lago. Marido e mulher trabalham para entreter os hóspedes.

O diretor se prepara durante meses para filmar seu grande clássico.

São 3 equipes de filmagem, que captam cada cena, depois de 4 meses de ensaios, testes e invenções de traquitanas. Um dos câmeras era COSTA GAVRAS.

Convocou artistas plásticos para criarem efeitos óticos. Era a pop art dando seus primeiros passos.

Depois de assistir a 8 ½ de FELLINI, decidiu criar uma obra que fugisse da linguagem tradicional. A trama ajudava, já que os delírios do marido ciumento poderiam levar à tela imagens distorcidas.

O filme seria em preto e branco. Os delírios, coloridos. Na era pré-computador, pintavam os atores de azul.

No entanto, depois de 3 semanas de filmagens delirantes, a produção foi interrompida. Era evidente que CLOUZOT, diretor, roteirista e produtor, sofria um surto psicológico.

Filmava e refilmava as cenas diversas vezes, em dias alternados. O filme não andava. A equipe se desgastava. Levava os atores e a equipe à exaustão. Acordava-os de madrugada para discutir o filme.

Até o ator abandonar a produção, e CLOUZOT enfartar e morrer.

As imagens ficaram guardadas num depósito por mais de 40 anos.

Recuperam e contam a história do filme interrompido,

A lista de filmes interrompidos por tragédias ou problemas de produção é grande:

Que Viva México! [Eisenstein]

Une Partie de Campagne [Renoir]

Claudius [Von Sternberg]

Don Quixote [Orson Welles]

The Passenger [Munk]

Chatô – O Rei do Brasil [Guilherme Fontes]

O INFERNO [L’Enfer] entra na lista.

Estaria esquecido, se os diretores Ruxandra Medrea e Serge Bromberg não se dispusessem a revelar as latas do filme e entrevistassem a equipe para recontar a sua história.

E lá está Romy Schneider no auge, com o misto de beleza teen e um olhar perturbado.

 http://www.youtube.com/watch?v=QydnBIOwoFc

 

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Por que os homens buscam prostitutas?

Tal dilema está no blog do XICO SÁ, que lembra a grande frase de JACK NICHOLSON, quando seu nome foi encontrado na agenda de uma gigolô de Los Angeles, a cidade do pecado: “Eu não pago para fazer sexo com uma mulher, mas para ela ir embora depois.”

“Tudo bem, a liberação sexual alterou um pouco essa história, mas a prostituição, pelo que se vê, resiste firmemente. A hipocrisia em relação ao tema, no entanto, segue a mesma, óbvio, não acha?”, escreveu XICO no seu blog.

Na peça MÚSICA PARA NINAR DINOSSAUROS, do Mário Bortolotto [ESPAÇO PARLAPATÕES], em que 3 amigos, em diferentes fases da vida, buscam o conforto com 6 prostitutas, duas frases ajudam a elucidar o enigma:

“Reparam que puta é a única mulher que escuta a gente falar.”

“É mais barato que psicólogo.”

Parece estranho, nos novos tempos, em que o hedonismo e fetiche ditam a rotina de homens e mulheres, em que elas estão mais livres, atiradas e com o superego em questionamento, alguns rapazes precisem ainda pagar para transar.

Depois de anos pesquisando o meio para o meu último romance, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, que aborda o universo de prostituição de luxo, em que entrevistei muitas meninas, frequentei boates e puteiros, conheci as gigolôs mais caras de São Paulo, jantei com garotas que ganham até 70 mil por mês, livres de impostos, tentei uma explicação.

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Simples.

Nos novos tempos, muitos homens não adaptados sentem falta daquela submissa sexual.

A maioria dos clientes é de homens casados.

Com uma garota, ele comanda as ações.

Levante a camisa.

Dance.

Tire toda a roupa.

Nesta posição agora.

Faça isso, aquilo.

Fale.

Agora fique quieta.

Vamos para o chuveiro.

Me lave.

Me bata.

Me xingue.

Deu uma hora? Tome, seu cachê. Adeus.

Tais sujeitos estão livres para realizar taras censuráveis, que ficarão guardadas no íntimo de 4 paredes.

Podem mandar, exigir, controlar, como se estivessem com seus animais de estimação.

São, por algumas horas, os reis absolutos da relação. Que tem um preço.

Pode custar 80 pratas, nas ruas do Baixo Augusta.

Ou 3 mil, num hotel de luxo.

E por que elas se prostituem?

Sem ilusões, por favor.

É pela grana, apenas pela grana.

Muitas têm filhos. Os tiveram adolescentes e foram abandonadas.

Muitas preferem um rendimento dezenas de vezes superior ao de uma atendente de supermercado ou secretária.

Todas querem se casar. Têm namorados. São românticas.

Às vezes, gozam com o cliente, dependendo da “pegada”.

Costumam caprichar, para que o cliente seja fiel, e a clientela, satisfeita. Como qualquer profissional que queira se dar bem na carreira.

Malham, porque o corpo é o seu instrumento de trabalho.

Não conseguem passar muitos anos nessa vida.

Depois de comprarem uma casa para a mãe, um apê, e conseguirem um carro e um diploma universitário, largam a vida. Até se casam.

Nenhuma gosta do que faz. É a grana que as movimenta.

Cocaína é a droga preferida.

A carência é o sentimento que as acompanha.

Nada de vida fácil.

Encaram velhos, tarados, sujos, violentos, fecham os olhos quando o cliente é insuportável, e pensam apenas no dinheiro que ganharão em minutos.

L’Enfer.

 

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Cesana, como você faz falta…

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Fotos da MARIA MANOELLA, com LUCIANO GATTI

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