Inveja das estrelas

Inveja das estrelas

Marcelo Rubens Paiva

09 de fevereiro de 2015 | 11h54

crab-nebula

 

Estranho me ver sozinho sábado numa cama de hospital, “leito”, num quarto que chamam de Observação 4, com pulseira e pulsão no pulso, à espera da ressonância, que dirá se é grave, se serei operado, se meu rim pifou, e terei que mudar a rotina da minha vida, se é culpa de um cálculo, se o cálculo se desfez, se passeia meu corpo, onde ele está, no ureter, na bexiga?

Logo hoje, sábado, resolveu sumir, se desfez, era de ureia ou cálcio?

Estava comigo há décadas.

Em todos os exames de rotina, lá estava ele, a manchinha branca no rim esquerdo.

Avisei a mocinha do ultrassom: “Tem uma pedrinha aí que não muda de tamanho nem saí do lugar.“ Mas sumiu. Ligou para meu médico, que me internou. Mais exames. Todos os exames. Não descansaremos até encontrá-la.

Me perguntaram se eu preferia homem ou mulher para introduzir uma sonda de alívio na uretra.

Tanto faz. Vieram enfermeiras que reclamara da nota do Prouni.

Tive uma ligeira ereção quando fizeram a limpeza com gazes, antissépticos, mais gazes, xilocaína e gazes. Pedi desculpas pelo momento inapropriado e perguntei se “aquilo” atrapalharia. Riram da minha ignorância e presunção: “O buraquinho é o mesmo. Estamos acostumadas, sabemos que é reflexo.”

Quem disse?

Achei engraçado: mentirinha masculina predomina num procedimento hospitalar. Ensinaram que é só reflexo. Ninguém contou que é gostosinha aquela manipulação? De repente, vupt! Entra sem dó, sem escalas, um tubo que percorre minha uretra, passa por trás da próstata e, chuá!

O susto é surpreendido pelo alívio.

Ligaram a TV, apagaram a luz e me deixaram com um cobertor. Fazia frio na sala. Desolador. Começava um programa sobre Fernando de Noronha com a Angélica. Bonita. De bermudinha jeans, mostrava algumas praias incríveis. Entrevistava Dani Winits e o músico Chay Suede, que tocou um violão. Pessoas bonitas, saudáveis, talentosas. O famoso Zé Maria, dono de uma pousada, colhia tomate, mandioca e limão plantados na ilha. Faziam um peixe fresco com a chef Vivi Gonçalves, enquanto falavam dos planos de suas vidas incríveis.

O programa se chama Estrelas.

Todos brilham na tela, nos nossos olhos, explodem como uma Supernova. Invejamos todos os blocos do programa. Pesquisei pra saber se Chay era parente do lendário colunista Ibrahim Suede, que ia às boates de NY, ficava ao lado de celebridades, dava ordens ao fotógrafo e publicava na coluna, como se fosse amigo da estrela: “Nosso Colunista com Brooke Shields”; “Ibrahim e Elton John na night”.

Chay Sued é nome artístico. É um artista.

Eles lá, eu cá. Não conhecerei Fernando de Noronha tão cedo, nunca andarei por aquelas areias, nunca nadarei com golfinhos naquele mar transparente. Por que exibem isso hoje em que estou sozinho com sonda, medo e dor, no Observação 4? Para quem exibem o momento de tanta beleza? Para invejarmos ou apreciarmos? Ah, assim vivem as estrelas, os ricos, os artistas, ou é mentira, uma ilusão?

Flávio Canto, judoca barra celebridade, esteve no programa e disse: “Aqui é um paraíso. Adoro essa ilha!”

Ele adora, ele vai sempre! Mariana Ximenes esteve lá. Grazi Massafera também. São loiras, são lindas, são bem-sucedidas, são melhores do que nós. Imaginei a fila de cadeirinhas de rodas de crianças da AACD vendo aquilo, imaginei velhos num asilo com Alzheimer, com incontinência, ou presidiários de Pernambuco, uma mãe de família numa palafita de Alagados, prostitutas de Paraopebas, uma família de aposentados sem amigos em Araras, um grupo num quilombo, garimpeiros em folga, um porteiro, uma doméstica num quartinho de poucos metros quadrados, fazendo as unhas, se preparando o sábado, um bêbado solitário do centro de São Paulo, descobrindo que existe um mundo tão distante do nosso, em que tem água, paz, sol, ar puro, e como são felizes as pessoas da TV, devem ser felizes, estão felizes, aparentam estar felizes.

Estamos todos vendo vocês, torcendo por suas carreiras, pelo seu sucesso.

Adoraríamos estar com vocês, curtir com vocês.

Infelizmente, não podemos.

Ninguém achou a minha pedra. Recebi alta duas horas depois.

Retomei a vida de gente comum, preocupado com a crise hídrica e o avanço do EI. Esqueça do jabá de Fernando de Noronha.

“Popularidade é a prima promíscua do prestígio”, diz o personagem Mike do filme Birdman

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