inexperiência premiada

inexperiência premiada

Marcelo Rubens Paiva

20 de dezembro de 2012 | 10h12

 

Em toda campanha eleitoral, se popularizam figuras que passariam despercebidas se não se engajassem em programas partidários e não aparecessem no horário de propaganda eleitoral gratuita.

Na última se popularizou a “bonitona do Chalita”, como era conhecida. “Você viu a gata que é a vice do Chalita?”, diziam eleitores em bares, cabeleireiros, rodas de amigos, almoços em família.

Ela é a ginecologista Marianne Pinotti, filha do falecido deputado José Aristodemo Pinotti, formada pela Universidade São Francisco, de Bragança Paulista.

Atuou durante 7 anos como responsável pelo setor de câncer de mama do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, e assumiu a Secretaria Municipal da Saúde de Ferraz de Vasconcelos, cidade da Grande São Paulo.

E, agora, foi escolhida pelo prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad, para a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. Uma dessas secretarias que, erroneamente, servem para a governabilidade e distribuição de apoios e cargos aos aliados.

Erroneamente, pois é importantíssima.

Marianne tem experiência zero no assunto, nunca foi vista nos encontros e congressos da militância.

Já a Secretaria engloba a CPA, Comissão Permanente de Acesso, que regula e fiscaliza leis de acesso e banheiros, rampas e calçadas, recebe denúncias de irregularidades, está em contato com a Secretaria de Transportes para regularizar os ônibus e táxis acessíveis, cria programas de treinamentos em escolas e repartições públicas, cuida do mobiliário da prefeitura, fiscaliza calçadas, terminais, shoppings, cinemas, teatros, casa de shows, bares, farmácias, agências dos Correios, estádios de futebol, projeto ATENDE, cartão de estacionamento DEFIS e para IDOSO, escolhe as vagas na cidade, cuida da sua manutenção, fiscaliza LEIS DAS COTAS e outras coisinhas “tolas”.

É uma Secretaria tão estratégica que funciona no prédio do gabinete do prefeito.

E que acaba de ser entregue a uma militante do PMDB absolutamente desconhecido do meio.

A ONG CVI-SP, que teve assento permanente na CPA, responsável pela criação dos programas acima [projeto ATENDE, cartão DEFIS, fiscalização em locais de reunião, táxis acessíveis], acaba de soltar um manifesto extravasando a sua revolta.

Sua e de toda a militância.

 

Amigos, colegas e companheiros de deficiência,

Com a indicação da médica Marianne Pinotti, candidata a vice-prefeita na chapa de Gabriel Chalita, para assumir a pasta das Pessoas com Deficiência e Mobilidade Reduzida na cidade de São Paulo, o PT e seus aliados, a exemplo do PSDB e coligados, infelizmente deixam claro que não possuem em seus quadros de filiados ou colaboradores pessoas “com deficiência” que tenham competência profissional e política suficiente para merecer a confiança do futuro prefeito quanto a desenvolver políticas públicas aos seus próprios pares.

Outra leitura é constatarmos que, em pleno século XXI, aos olhos dos governantes, e de pessoas com deficiência que se submetem a essa conduta, nós, cidadãos brasileiros que temos algum tipo de deficiência, ainda somos indiscriminadamente a própria deficiência e necessitamos incondicionalmente de ajuda, supervisão médica e até mesmos de tutela.

Seja como for, fico imaginando como seria a reação da sociedade se para uma secretaria voltada às políticas para pessoas negras fosse indicada uma pessoa branca, ainda que militante e defensora da integração racial, ou se uma secretaria de políticas para as mulheres tivesse como titular um homem, mesmo que um médico ginecologista.

Sempre fui crítico para com essa situação e, como militante há mais de trinta anos pela garantia dos direitos das pessoas com deficiência e ativista pela implantação do movimento de vida independente em nosso país, não posso deixar de me sentir incomodado com a passividade da maioria dos meus pares que, seja por acomodação, falta de envolvimento político, ignorância, ou por conveniências pessoais, empregatícios e financeiras, se calam e até mesmo apoiam esse retrocesso.

Certamente o fato de uma pessoa possuir alguma deficiência e ser filiada a um partido político não legitima sua capacidade profissional e muito menos seu caráter para comandar tamanha tarefa, como também não cabe aqui questionar a competência e o comprometimento daqueles que, mesmo sem possuir deficiências, ocupam ou virão a ocupar essas pastas, tanto nos governos municipais quanto estaduais. Apenas considero falta de sensibilidade e visão política, para dizer o mínimo, manter a representatividade da promoção de políticas públicas para esse expressivo segmento da sociedade – hoje cerca de 23% da população segundo o senso do IBGE 2010 – sob o comando de pessoas que não vivem na própria pele as consequências impostas pela morosidade na execução de ações efetivas que garantam na prática as obrigações estabelecidas nos textos legais, tais como falta de acessibilidade ao transporte, educação, emprego, saúde, cultura, esporte etc.

Sem querer ser dono da verdade, penso que é mais fácil discutir sobre a fome quando se está de barriga cheia! Guardadas as proporções, entendo que discursar sobre as necessidades das pessoas com deficiência e depois, ao término do evento, sair andando, ouvindo, enxergando e convivendo sem maiores problemas com as barreiras arquitetônicas, sensoriais e atitudinais, que são explícitas em nossa sociedade, seja a mesma coisa. 

Então, lanço o desafio para que todos reflitam sobre o assunto e, quem sabe, possamos contribuir para a melhora da conduta ética no meio político a partir da nossa própria forma de pensar e agir.

Saudações.

Edison Passafaro

Fundador do Centro de Vida Independente Paulista

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