iene – pra não ficar falada

iene – pra não ficar falada

Marcelo Rubens Paiva

18 de março de 2011 | 13h57

Agora, especuladores financeiros vão atrás da moeda japonesa e compram.

Surpreendendo a todos, o Japão afunda, mas o IENE sobe.

E isto não é piada. Segue uma lógica que só o mercado conceberia:

1. Dada a crise no Japão, grandes indústrias, como Honda, Mitsubishi, Sony, terão de repatriar dinheiro para ajudar a reconstrução do país.

2. Para isso, trocarão os dólares das filiais americanas, os euros das européias, os reais das brasileiras, por ienes.

3. Portando, pela lei da oferta e procura, caçarão os ienes que já estão nas mãos dos especuladores. Acima do preço.

Ainda tem gente que diz que só o capitalismo com economia de mercado livre e concorrência traz justiça social.

Dios mio, e não é que o velho Marx tinha razão quanto à perversidade do lucro?

+++

“Eu, pai da (nome da filha), decido diante de Deus seguir a minha filha com autoridade e proteger no campo da pureza. Serei puro na minha própria vida como homem, marido e pai, e um homem com integridade para liderar, o guia e conselheiro da minha família. Como este juramento, tal compromisso pode ajudar Deus a proteger gerações que virão.”

“Eu senti o poder dessas palavras, que atingiram diretamente o meu coração. Meu pai jurou me proteger e prometeu me proporcionar uma vida de pureza e integridade. Senti a força da sua promessa, que serve de exemplo.  Finalmente tenho um modelo a seguir por toda a minha vida e estou tão grata pela decisão do meu pai, que me sinto encorajada por assumir esse compromisso.”

Pode uma coisa dessas?

Tais juramentos são feitos num culto em que pais e filhas- de longo e maquiagem, que vão de 4 a 12 anos de idade- trocam alianças e firmam um pacto para elas se manterem o quê?

Sim, apesar dos novos tempos, da revolução digital e no mundo árabe, virgens até se casarem.

São partes da doutrina do Purity Ball, criado em 1998 pelo pastor Randy Wilson, e que já se espalhou por 48 estados americanos e 17 países. Evento que custa US$ 89 por pessoa e dá direito a um jantar.

O ponto alto da cerimônia é quando os pais formam um círculo ao redor das filhas. Cada um pega a sua, diz o quanto ela é linda e perfeita, entrega uma flor rosa e faz o juramento.

Depois, o bailinho rola até meia-noite.

Wilson explica o sucesso da sua seita, Generation on Light [http://www.generationsoflight.com]:

“Pergunte a qualquer garota com qual homem ela gostaria de se casar, e ela dirá: Com um que se pareça com o meu pai.”

Freud há muito dizia o mesmo, baseado numa ciência que muitos acusam de não ser empírica e no teatro grego, cujas tragédias foram escritas baseadas em mitos por autores beberrões e pederastas. Um dele fez uma peça em que o filho se apaixona pela mãe.

E os garotos?

Não ficam fora dessa.

Convidados a assistir ao rasta-pé evangélico das irmãs e amiguinhas, eles ganham uma espada pesada e maior do que eles.

Os líderes acreditam que eles se inspirarão e transcenderão suas vontades mais censuráveis, já que terão de crescer para usar a espada. Literalmente.

“Garotos se tornam homens observando os pais”, justifica o pastor.

+++

Clamor do Sexo (Splendor in the Grass), filme de Elia Kazan, retrata as angústias de um casal de adolescentes, que vivia numa cidadezinha do longínquo Kansas dos anos 20 e é sufocado pela rígida moral puritana da época.

Bud, o capitão de time (Warren Beatty, estreando no cinema), e Deanie (Natalie Wood) são os garotos que, no auge da paixão, precisam, devem, são obrigados moralmente a se controlar, para manter a pureza regida pelas convenções.

Durante todo o tempo, os personagens do filme se perguntam como é possível reprimir tamanho desejo.

Nem os pais, nem os médicos, são capazes de explicar o que fazer com a libido característica da idade.

As coisas são assim e pronto. O pai sugere (e leva) o filho a um bordel. Chega a pagar uma garota de programa para o rapaz.

Na cidade, as moças não querem “ficar falada” como Loden, a irmã do cara, que dava para todos, inclusive para os homens casados, e vivia de porre, pois não suportava a moral rígida daquele canto do mundo.

Bud e Deanie se pegam, se amassam, mas não podem ir além.

Ele decide terminar o namoro, quando descobre que irá para Yale e ficará quatro anos longe da garota, pois sabe que não conseguirá se segurar e não quer estragar a pureza da garota amada.

Na escola, a professora de línguas dá uma dica do terror pelo qual os alunos passarão, ao ler o famoso poema de William Wordsworth, Splendor in the Grass, e pedir para as mocinhas interpretarem:

“Apesar de que a luminosidade foi um dia brilhante e tenha sido para sempre tirada da minha vista, embora nada possa trazer de volta o momento, do esplendor na relva, da glória na flor, nós não lamentaremos por algo que ficou para trás.”

É quando Deanie reflete sobre a idealização em que vive, se nega a encarar a verdade e pira de vez. É internada num manicômio em que fica dois anos e meio.

Enquanto Bud larga os estudos depois do Crash de 1929, se casa com uma ex-garçonete e vira um rancheiro pobretão e digno.

O estrondoso sucesso do filme (Oscar de melhor roteiro) tem uma razão de ser.

Retrata a geração dos nossos avós, é “de época”, mas foi produzido e lançado no comecinho dos anos 60, quando a pauta de uma revolução sexual que estava para ser detonada era aventada em todos os lares, bancos de escola e diners, entre um milkshake e outro.

O movimento dos direitos civis não saía das manchetes, o tabu da virgindade se desintegrara, o sutiã se tornaria peça obsoleta do vestuário, e o controle da natalidade, prioritário, inclusive com a liberação do aborto, mudando para sempre a vida sexual de todos, jovens ou não.

Clamor do Sexo é considerado um dos dramas mais marcantes do cinema americano, daqueles que provocam debates por um longo tempo.

Causou escândalo por retratar a crueldade que o amor entre adolescentes pode gerar, e por mexer em vespeiros fundamentais como educação e liberdade de escolha.

Temas que, pelo visto, ainda incomodam.

Afinal, o que seria de uma revolução sem uma contra-revolução, por mais que ela soe ridícula e pretensiosa. No caso da seita Generation on Light, talvez não sejam as filhas que precisem de proteção, mas os pais, de cuidados médicos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.