Hora de falar sério

Hora de falar sério

Marcelo Rubens Paiva

01 de agosto de 2019 | 14h27

O mundo mudou. O discurso de ódio mudou o humor. O humor ficou sério.

Existem três fases na evolução de um comediante: a piada a qualquer custo, o que eu quero de dizer, e, enfim, o que eu preciso dizer. São dicas do professor Fábio Lins.

Um comediante atinge um patamar superior quando, entre as piadas, fala muito a sério, desabafa, precisa desopilar. E pode-se acompanhar esta evolução no streaming.

Três deles resolvem falar de problemas pessoais para uma plateia atônita e surpresa, Chris Rock, Aziz Ansari e Hannah Gadsby.

Aliás, Hannah foi longe e fez de um show em Sidney, Austrália, uma aula sobre preconceito, homofobia, raiva e arte.

Chris Rock surpreendeu a plateia do Brooklin, NY, ao falar do fim do seu casamento com Malaak Comptom, pelo fato de ter traído a mulher três vezes.

Pediu desculpas à família, amigos e às mulheres da plateia no já histórico show Tamborine.

Azis acaba de estrear na Netflix o show Right Now.

Acusado de assédio no ano passado, a estrela em ascensão ficou fora dos holofotes, perdeu contratos e faz um mea-culpa ao vivo: “Eu me senti com medo, humilhado e envergonhado. Mas, sobretudo, eu me sinto péssimo por aquela pessoa se sentiu assim. Depois de mais de um ano, espero que eu tenha dado um passo adiante, que eu tenha me tornado uma pessoa melhor.”

A garota escrevera anonimamente na época no site Babe.net falando de como tinha tido a pior noite da vida.

Conhecera Aziz em 2017 na cerimônia do Emmy, que bombou como estrela da série Master of None, transaram e se sentiu humilhada: “Você ignorou minhas dicas não verbais, continuou avançando.”

Ele abre e fecha o show dirigido por Spike Jonze, também no Brooklin, pedindo desculpas.

Mas quem arrasa mesmo é Hannah.

No show Nanette, que estreou há um mês, realizado numa lotada Ópera de Sydney, ela dá uma aula de humor, de como comediantes se autodepreciam, da criação da tensão, E anuncia que para de fazer comédia.

Lésbica assumida, ela faz um show político, da homofobia que ela própria, que veio da Tanzânia, região ultraconservadora, sentia.

Dirigindo-se aos homens da plateia, desabafa: “Preciso largar a comédia. O único jeito de falar a minha verdade e deixar a sala tensa é mostrar minha raiva. Eu sinto raiva e tenho todo o direito de sentir. Não tenho direito é de espalhá-la.”

Ela não quer espalhar ódio cego, nem se fazer de vítima, por isso acha melhor parar de fazer shows.

spoiler: No final, enumera para uma plateia em choque os abusos que sofreu.

Hannah não vai parar de se apresentar. Já agendou shows em NY, Europa e Austrália.

E fez da piada uma coisa séria. Seríssima. Que nos faz refletir.

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