Homem das cavernas

Homem das cavernas

Marcelo Rubens Paiva

30 de outubro de 2009 | 13h53

Há uma semana, uma estudante do 1º ano de Turismo do período noturno da unidade da Uniban de São Bernardo do Campo teve que sair da faculdade escoltada pela PM.

Motivo, vestia uma minissaia vermelha. Iria a uma festa depois.

Ela foi xingada e acuada por um grupo de estudantes, quando subia uma rampa. Ficou trancada numa sala com a ajuda de um professor, que lhe deu um avental e chamou a polícia.

Apesar de ter acontecido no dia 22, só ontem ganhou repercussão, já que as imagens do tumulto foram postadas no YouTube

“Ela veio com um vestidinho rosa da pesada, daqueles que se usa com calça legging, só que sem a calça”, disse o estudante de Matemática Pedro Adair, de 23 anos, para o Estadão. “Os três andares da faculdade subiram atrás dela. O pessoal parecia estar no tempo das cavernas, só faltou arrastá-la pelos cabelos”, disse.

O fato parou a faculdade. Uma aluna afirmou que os colegas ficaram gritando “puta” para ela. O coral de gritos de “puta” a acompanhou até que deixasse o prédio.

Uma catarse masculina exigiu à força que os padrões que eles consideram corretos fossem respeitados. Submeteram uma mulher ao humilhante papel de obedecer.

No dia seguinte, não houve manifestação ou passeata. O caso seria esquecido se não causasse alvoroço na internet. Garanto que suas colegas, em protesto, não apareceram todas de minissaia nas aulas seguintes. Ao contrário, muitas delas devem ter dito: “Essa puta mereceu.”

Há um traço conservador da sociedade brasileira que é fácil de detectar e difícil de entender. Diferentemente do que acontece nas praias da Europa, aqui as mulheres não se atrevem a fazer topless. As poucas que tentaram foram expulsas. O Brasil ainda é um dos poucos países do mundo em que o aborto é crime. E garanto que a maior parte das mulheres apoia a proibição.

“Ela é um poço de bondade. E é por isso que a cidade vive sempre a repetir: Joga pedra na Geni, joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni!”

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Há 4 dias, uma adolescente da CALIFÓRNIA foi estuprada coletivamente por alguns colegas da escola, numa festinha regada. As testemunhas que assistiam não fizeram nada para impedir.

Seu corpo foi jogado numa mesa de piquenique no parque vizinho e abandonado. A polícia só a encontrou desacordada, casualmente. Prendeu 5 moleques. Um deles tinha 14 anos. A repercussão negativa do caso foi tamanha, que talvez eles peguem prisão perpétua.

No dia seguinte, a comunidade, pais e alunos da escola fizeram uma passeata em protesto contra a violência. No coments…

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Estreia na MOSTRA DE CINEMA de SÃO PAULO um filme por quem tenho muito carinho e me sinto responsável: CARMO, do diretor MURILO PASTA, meu colega de faculdade.

É uma produção BRASIL, ESPANHA, POLÔNIA. Falado em português e espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português.

CARMO foi selecionado para a Competição Internacional do Festival de Sundance este ano, bem como para vários outros festivais – Seattle, Guadalajara, Praga, Varsóvia, Raindance (Londres), Hollywood (Los Angeles). O filme será distribuído nos EUA em 2010.

No elenco, Seu Jorge (fazendo o papel de um bandido gay enlouquecido),
Rosi Campos (no papel de uma beata ninfomaníaca), Fele Martinez (um dos
atores favoritos de Almodóvar), Márcio Garcia (bronco, com dentes
podres, desfigurado e desconstruído, como nunca se viu antes) e Mariana Loureiro (de Abril Despedaçado).

A música é de ZECA BALEIRO. Mas tem também Cesária Évora e Lila Downs.

Por quer tenho carinho por ele?

MURILO era o meu melhor amigo da faculdade. Enquanto eu escrevia FELIZ ANO VELHO, ele escrevia também um romance, que nunca foi publicado, e acho que ele nunca terminou. Éramos os escritores da turma e grudados. Líamos e palpitávamos cada capítulo levantado.

Rodávamos a cidade juntos. MURILO era o primeiro a tirar a minha cadeira de rodas do porta-malas do carro, a me ajudar a subir as escadas da ECA e cinemas da cidade.

Muitos achavam que era meu irmão, já que, por vezes, com outros colegas, PAULO RICARDO e RUI MENDES, me subia escadas no colo, inclusive a da casa da minha namoradinha dos tempos de facu, FERNANDA.

MURILO se formou em cinema e se mudou para LONDRES. Lá, dirigiu episódios de séries de TV e seu primeiro longa, financiado pela MTV.

Voltou para o BRASIL há poucos anos e escreveu e dirigiu CARMO, um road movie que se passa na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Nos primeiros tratamentos, ele não estava satisfeito. Até me reencontrar. Eu lhe contei sobre os deficientes mais loucos que conheci, entre eles, um ladrão de carros de BH, que arrombava a porta, sentava no banco de motorista, jogava a sua cadeira de rodas no banco de trás e, com tocos de vassoura encaixados nos pedais, dirigia.

Então, MURILO teve a ideia de ouro, que engrandeceu o roteiro: o personagem de Fele Martinez, um contrabandista, seria paraplégico.

Aliás, o espanhol Fele esteve em São Paulo antes das filmagens. Dei algumas dicas e emprestei uma cadeira de rodas manual, que ele ficou usando, para se acostumar, durante os ensaios e a pré-produção.

E é essa minha antiga cadeira de rodas que está no filme, a mesma que MURILO tantas vezes guardou e segurou. O mundo dá voltas [em si].

Ele estará em cartaz na MOSTRA e entra em cartaz no circuito comercial daqui a uns meses. Quem quiser conferir antes:

UNIBANCO ARTEPLEX 3
31/10/2009 – 18:20 – Sessão: 862 (Sábado)

RESERVA CULTURAL 1
01/11/2009 – 20:00 – Sessão: 1022 (Domingo)

ESPAÇO UNIBANCO POMPÉIA 10
02/11/2009 – 18:10 – Sessão: 1146 (Segunda)

ESPAÇO UNIBANÇO POMPÉIA 2
03/11/2009 – 14:00 – Sessão: 1227 (Terça)

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Ah, já estava me esquecendo.

Amanhã mediarei o debate A POÉTICA DA IRREVERÊNCIA com CONTARDO CALLIGARIS, REINALDO MORAES e outros, ao meio-dia, no TEATRO SATYROS 1 [faz parte das SATYRIANAS, agitação que acontece nesse fim de semana na capital].

E EU e MÁRIO BORTOLOTTO estaremos no palco da SATYRIANAS, atuando na peça ROURKE SONG, à 1h, de sábado para domingo, na Tenda Tendências, em plena Praça Roosevelt.

Um trechinho:

os homens se perdem nessa luta contra um moinho e, no fim, nem sabem mais por que mesmo estavam se martirizando pela infidelidade intrínseca, se nunca sequer traíram a namorada. é a grande conspiração feminina pra dominar os homens pela culpa. desde criancinhas incutem dia noite as avós e tias e mães nas cabecinhas a mistificação da infidelidade masculina. reclamam de precisar cuidar dos filhos, mas faz tudo parte do grande plano. querem manter os homens trabalhando o maior tempo possível, pra que eles não possam criar os filhos de acordo com os valores masculinos da honestidade e da honra. os menininhos crescem já culpados por um crime que talvez nem cheguem a cometer.

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