Hoje é sexta

Hoje é sexta

Marcelo Rubens Paiva

27 de março de 2009 | 00h32

Como diria Luiz Melodia, “teatro, boate e cinema, qualquer prazer me satisfaz”. As árvores de São Paulo dão flores duas vezes por ano. Imaginavam que o solo da cidade era abençoado. Descobriu-se que é estresse. Elas dão flores duas vezes por ano, numa busca desesperada pela sobrevivência [procriação]. Está vendo? Tem beleza no CAOS. Ou por CAUSA dele procuramos deixar o mundo mais colorido.

Em cartaz no ótimo teatro da Livraria Cultura O HOMEM DA TARJA PRETA, do colunista que mais sucesso faz na imprensa brasileira, o psicanalista Contardo Calligaris, de quem chupei uma frase linda para a minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO. Chupei e avisei. Mais que isso: convidei-o para a estreia e pedi para identificar o plágio. Ele acertou.

CAROL
“Se vou embora, o cara que deixei se distancia, volto a idealizar. Pra manter a paixão, tem que continuar a imaginar à distância. Um ciclo sem fim. Eu preciso parar.”

CAROL (Paula Cohen)
CAROL (Paula Cohen)

Contardo estreia no teatro já como um dramaturgo de mão cheia. Explora a própria bagagem, as histórias que escuta no divã, e a crise do homem contemporâneo. Aliás, enquanto eu assistia, só pensava nisso: é o que rola no consultório?

O ator Ricardo Bittencourt faz um típico brasileiro, casado e com dois filhos, que espera a esposa dormir, para se trancar no escritório, se travestir e entrar em salas de bate-papo virtuais.

Ricardo se culpa por suas fantasias, expõe dilemas dos seus casamentos, da cobrança da mãe, da autocobrança. Não se identificava com os superheróis, mas com os atores que tinham de se transformar em superheróis.

Não interessa se o autor usa ou não a psicanálise em vão, com propriedade. Conseguiu falar dos desejos secretos e dramas de muitos de nós. Conseguiu fazer teatro.

Direção da grande Bete Coelho, que nos apresenta esse ator baiano sensacional.

Hoje é dia também da instigante peça NATUREZA MORTA (à meia-noite, Satyros 1), com a atriz Anna Cecília Junqueira, produtora de A NOITE MAIS FRIA DO ANO, de quem sou fã e amigo.

Escreveu Mário Viana, o autor de NATUREZA MORTA, no seu blog:

Anna Cecilia Junqueira tem 20 e poucos anos, uma beleza diáfana, uma doçura que espalha ao andar, sem se dar conta. Seria a pessoa menos indicada a encarnar uma mulher que acaba de matar o amante, por quem fora louca de paixão. Acontece que Anninha é ótima atriz. Mergulhou no texto e dele emergiu como a mulher sofrida que as palavras exigiam. Toda vez que ela entra em cena, olhos fundos, ar perdido, para iniciar uma conversa com o pintor invisível, faz-se a magia do palco. Começa “Natureza Morta”, no Espaço dos Satyros 1, toda sexta e sábado, meia noite. É um deleite para o público – e para o autor, também.

Escritores são figuras muito estranhas. Trancam-se em seus quartos-laboratórios-redomas-edens e criam mundos. Imperfeitos, violentos, doces, amorosos mundos. Dentro desse universo, o autor de teatro é o estranho entre os estranhos. O autor de teatro nunca completa sua obra sozinho. Ele precisa do olhar do diretor, da mão do iluminador, da ajuda do cenógrafo – e do corpo dos atores. E todos, juntos, precisam do público. Sem o conjunto de olhares difusos na escuridão, atentos a cada movimento em cena, não há teatro.

Assino embaixo. E olha o que mais o Mário Viana escreveu no seu blog:

http://www.olharesloiros.blogspot.com/

Ontem, consegui uma folga de “Poder Paralelo” (estréia dia 14 de abril, na Record) e fui ver “A Noite mais Fria do Ano”. Não consegui falar com o Marcelo Rubens Paiva, não pude cumprimentá-lo. No meio da apresentação, eu comecei a achar a peça esquisita, a Paula estava infantil, o Alex Gruli estava travado… De repente, uma frase, tudo muda e todas as fichas caem. E de novo, e de novo. A peça é um jogo e fez ainda mais sentido hoje do que ontem. Cada vez que penso nela lembro de um detalhe, um dado qualquer… Belíssimo texto, dom Marcelo!

Mas o que me deixou pleno mesmo foi o elenco – em especial a Paula Cohen e o Hugo Possolo. Com a Paula nunca trabalhei – até agora, mas calma, somos jovens e temos tempo. Já o Hugo… é até covardia falar de alguém com quem tenho uma afinidade profissional e pessoal acima dos padrões convencionais. Na qualidade de segundo autor mais montado dos Parlapatões, posso dizer isso com tranquilidade. Minha parceria com o Hugo, independente do resultado, é um casamento perfeito – inclusive porque não tem sexo. Minha amizade e meu carinho por ele poderiam me impedir de escrever, seria muita babação de ovo.

Mas ontem, vendo o Hugo e a Paula em cena, me comovi muito. Por várias razões: pelo trabalho que eles desenvolvem em cena; pela generosidade de ser ator ao lado do Bortolotto, dois diretores seguindo as orientações de um diretor relativamente verde, como o Marcelo… e pela entrega ao papel. Na história, o personagem de Hugo rasteja por uma mulher que o trocou por outro cara. Lá pelas tantas, beijam-se, tentando resgatar uma paixão perdida. Transam, movidos por um desejo desesperado e inútil. É lindo. E eu me dei conta que nunca tinha visto o Hugo beijando a boca de uma mulher em cena – palhacinhos não beijam. Que coisa.

Puxa… Valeu.

Fui correndo ver GRAN TORINO, filme dirigido e protagonizado por Clint Eastwood. Veio com mil elogios. Seu papel, um antiherói racista, destoa. Posso falar? E daí? Achei chato que dói. Bobo. Com um final absurdo. Sei lá. Tantas coisas… Esquece.

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