Historiadores brasileiros desautorizam série do History

Historiadores brasileiros desautorizam série do History

Marcelo Rubens Paiva

22 Outubro 2017 | 15h57

 

Anunciada com alarde, historiadores brasileiros, como Laurentino Gomes, Lira Neto, Lili Schwarcz, vêm a público dizer que foram “lubridiados” pelos produtores da série Guia Politicamente Incorreto da História Brasileira, que estreou ontem pelo The History Channel.

A produtora Fly, responsável pela série, os entrevistou sem informar corretamente do que se tratava.

“Sinto-me violentado em fazer parte de qualquer produção que recorra à superficialidade e ao polemismo fácil”, escreveu Lira Neto em desabafo difundido em redes sociais.

Logo, outros historiadores entrevistados se identificaram com ele e se solidarizaram.

Lira pede para retirar suas entrevistas da série. Laurentino Gomes pediu para seu nome ser retirado. Escreveu pelo Twitter: “Faltou transparência na produção.”

 

 

Sérgio Abranches e Mary del Priore também manifestaram indignação contra conduta da produtora, que não informara com detalhes do que se tratava as entrevistas solicitadas.

A série em oito episódios baseada no livro de Leandro Larnoch é apresentada pelo animado youtuber Felipe Castanhari.

Não chega a afrontar dados históricos.

Mas sua linguagem é questionável. E as polêmicas (ou tretas, como eles falam), artificialmente montadas.

História não é brincadeira.

ATUALIZAÇÃO 23/11:

Laurentino escreveu ontem mesmo que “a produtora do @CanalHistory me ligou e pediu desculpas. Prontamente aceitas”.

Hoje tuitou, em relação ao autor do livro: “Fiquei satisfeito com a explicação de @lnarloch. Acho que não houve má fé dele e do @CanalHistory. Só amadorismo e ingenuidade da produtora.”

Leandro Narloch? em seu Twitter escreveu hoje: “Minhas impressões sobre as queixas, muito justas, do @LiraNeto_ e @laurentinogomes, à produtora e ao History”.

E mandou o link de sua página do Facebook:

Amigos, eu gostaria de comemorar a estreia da série “Guia Politicamente Incorreto” no History, mas um fato me deixou bastante frustrado. Alguns jornalistas e historiadores entrevistados pelo Studio Fly, produtora que adquiriu os direitos do livro, reclamaram de não terem sido avisados que a entrevista era para a adaptação do Guia. Sentiram-se ludibriados e pediram para a participação ser retirada do programa. 
Fiquei muito triste ao saber disso, mas entendo a queixa dos entrevistados e concordo com o pedido. Quem participa precisa saber do que está participando. O entrevistado tem todo o direito de saber com quem está conversando e qual o objetivo da entrevista – não só para decidir se aceita falar, mas para moderar suas opiniões. 
É especialmente lamentável isso também ter acontecido com o Laurentino Gomes, autor que, como me disse ontem, contribuiria com prazer se a produtora tivesse sido transparente. 
Desde o começo, o History tomou a ótima decisão de ouvir gente com convicções políticas diferentes das minhas e incluir declarações que até contrariavam o que eu afirmo no livro. Adorei essa ideia. Com tanta intolerância à divergência de ideias hoje em dia, nada melhor do que criar um debate elegante sobre temas delicados da história do Brasil. E acredito que esse trabalho foi feito: a série está excelente, divulga muito bem a história do país para os brasileiros mais jovens. 
Mas eu imaginava, é claro, que todos os 55 entrevistados sabiam qual era o objetivo das entrevistas. Até porque a entrevista exige aprovação formal, que todos os entrevistados assinaram. Como há alguns anos eu insisto em livros e artigos, há verdades que precisam ser ditas. 
Pedi ao History para acatar o pedido dos entrevistados e retirar os trechos em que aparecem. É uma pena, pois sem as declarações deles o debate empobrece. 
Apesar dessa mancada, a produtora fez um programa ótimo e acredito que conseguirá reeditar os episódios mantendo a série rica e divertida.