Hércules demitido dos 12 trabalhos

Hércules demitido dos 12 trabalhos

Marcelo Rubens Paiva

23 de novembro de 2011 | 13h08

 

 

Twitter ou Face?

No primeiro, são 140 caracteres para um haikai romântico, piada de um tiro ou uma indignação a desconhecidos, que logo somem na misteriosa neblina da rede.

No segundo, você se sente no dever de expor a amigos e amigos de amigos que é esperto, antenado, engajado, que sabe garimpar músicas e vídeos, como se para eles fosse importante, naquele momento do dia, escutar e ver um clip sugerido.

E, pior, fica tudo registrado para sempre. Na sua página, na dos outros, no Google, entre céu e a Terra e sabe mais em que conglomerado.

Postei este raciocínio no Twitter. Foi um sucesso. Seguidores retuitaram.

Tuiteiro ama o Twitter. É empolgado, como aquelas pessoas que falam sem parar, entendem de muitos assuntos e conseguem se meter em todas as rodas, sem receio de dar um fora.

Parece final de casamento, em que estão todos íntimos e altos.

Postei a mesma ideia no Face. Não curtiram.

Faceiro é mais blasé.

É seletivo. Escolhe com quem quer compartilhar suas informações.

É ligado numa tal “privacidade”, habilidade do milênio passado.

O comentário que faz sucesso numa rede social não é unanimidade na outra. O que indica que são próprias, seguem regras e condutas que não são necessariamente comuns.

Como diria Tim Maia: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra.”

Na verdade, acho Twitter mais divertido. A rapidez faz com que o laptop ganhe o sentido literal, “computador de colo”. E virou uma maneira de assistir à TV com a sala cheia de amigos, já que se comentam os lances do jogo, da novela, dos programas, até partidários, em comunidade.

Internautas espalhados pelo mundo ironizam ou se chocam concomitantemente. Certa vez, a calça de Zeca Camargo, apresentador do Fantástico, foi discutida mundialmente.

#Foi Wanda! virou top trend mundial. Tuiteiros de todas as partes, que acompanhavam os acontecimentos na Síria e Líbia, ficaram sabendo que no Brasil foi Wanda quem matou Norma, revelação do último capítulo de Insensato Coração.

Neal Gabler defende que vivemos cada vez mais num mundo “pós-ideia”: se a informação foi um dia alimento de ideias, na última década ela se tornou sua concorrente.

“Somos inundados por tanta informação que não teríamos tempo para processá-la mesmo se quiséssemos.”

Informações triviais expulsam informações significativas e ideias. Preferimos conhecer a pensar. Conhecer tem mais valor imediato. Ideias são pouco práticas. Dão muito trabalho, para pouca recompensa. É mais cômodo trocar informações, que se obtêm facilmente, do que ideias. E nem sempre estas informações resultamem ideias. Muitasdelas serão esquecidas no dia seguinte.

Mas há um paradoxo.

O próprio Face é uma tremenda ideia lucrativa e global. Como o Twitter.

Não vão durar para sempre.

A história da internet, ainda no seu limiar, prova que em poucos anos uma novidade substitui e aposenta uma ideia antiga.

A rede se devora de tempos em tempos.

O novo se torna velho enquanto ainda engatinha. Pode ser a era do fim das ideias. Mas o consumo de novas ideias é a essência da rede.

Que faz da sua renovação um vício.

Por vezes, do nada, uma onda de inteligência e humor aparece no Twitter.

Prova que, atrás dos digitadores de 140 caracteres, tem gente que sabe das coisas.

A crise da Grécia gerou diversos comentários.

Afinal, não deixa de ser uma ironia o berço da civilização ocidental ser responsável pela possível quebradeira de um sistema aparentemente invencível, sólido e “justo”.

De repente, apareceu o tópico #crisenagréciaantiga.

Heróis mitológicos se viram diante de uma recessão iminente e da ironia dos mortais.

Surgiram frases como:

“Medusa transforma pessoas em pedra e vai vender na cracolândia.”

“Rei Minos autoriza venda de Minotauro para churrasco grego.”

“Zeus anuncia demissão em massa no Olimpo para cortar gastos públicos.”

“Vinte homens fogem de caverna e acusam Platão de sequestro.”

“Sem dinheiro para pagar uma diarista, Zeus muda o nome do seu lar de Olimpo para Onãoreparaabagunça.”

“Sem grana, Apolo tenta virar um Colírio da Capricho.”

“Atenas entra em liquidação e muda seu nome para Apenas.”

“Hércules suspende seus 12 trabalhos por falta de pagamento.”

“Hércules é demitido dos seus 12 trabalhos.”

“Heráclito recicla água do rio.”

“Zeus tenta reduzir a pensão das centenas de filhos na Justiça, alegando redução de ganhos.”

“Hércules agora fará 16 trabalhos; os quatro a mais serão um extra para pagar dívidas.”

“Ilha de Lesbos abre resort hétero.”

“Sem dinheiro para pagar as dívidas, Zeus libera as ninfas para trabalharem na Eurozona.”

“Escândalo: Priapo é visto comprando Viagra.”

“Com aluguel atrasado, Platão é despejado de sua caverna. ‘Crise não é um mito’, admite.”

“Vênus de Milo promete dar uma mãozinha a desempregados.”

“’Ícaro está de dar pena…’, revela Dédalo.”

“Dionísio reclama de vinho ter sido substituído por pinga barata a fim de conter gastos.”

“Centauro reclama da retirada do item ferradura da cesta básica como forma de corte de gastos.”

“Projeto Todonon sofre cortes e vira Partenon.”

“Alexandre, ricaço da Macedônia, está comprando tudo a preço de azeite.”

“Com Sísifo em greve, pedra chega ao 5° dia parada no pé da montanha.”

“Sem recursos, governo admite adiar Olimpíadas para Era Moderna.”

“Parlamento grego convoca Hércules para executar trabalhos de ajuste fiscal.”

“Prometeu rouba fogo para vender espetinho.”

“’Se ao menos tivéssemos patenteado a democracia’, lamentam gregos.”

“Sem perspectiva de emprego, homens abandonam Ilha de Lesbos.”

“Zeus tem raio desligado por não pagar conta de luz.”

“Teseu é capa da G Magazine em novembro.”

“Sísifo já não empurra mais uma pedra; fumou na cracolândia.”

“Titãs em fúria fogem da ilha e formam uma banda de rock no Brasil.”

“Zeus começa a demitir alguns deuses por falta de orçamento.”

“Igreja Universal compra teatros gregos e deixa Dionísio enfurecido.”

“Sem dinheiro para pagar plano, Édipo entra na fila do SUS para tratar do seu complexo.”

“Poseidon começa a cobrar impostos sobre os habitantes que moram debaixo d’água.”

“Medusa transforma pessoas em pedra e vai vender na cracolândia.”

“Eurípedes abandona as tragédias e entra no mercado de musicais.”

“Sófocles e Ésquilo estreiam próxima novela das seis.”

Difícil dar crédito para os autores dessa zoação mitológica[muita retuitagem]. Bem, as últimas duas são minhas.

E se preparem para a #crisenaromaantiga.

Império daqueles bêbados degenerados, pervertidos e sanguinários.

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