Happy Family

Happy Family

Marcelo Rubens Paiva

10 de junho de 2009 | 12h47

Leitura do feriadão:

Atordoado. Foi como ele ficou, porque ela saiu da sala de embarque e o cumprimentou com um beijo no rosto. 6 anos. Beijo no rosto? Que afronta. Que falta de cuidado. Que bandeira. Não comentaram o assunto. Mas o olhar dela não procurou o carro, e sim o olhar dele. Portanto, é lógico que ela também se surpreendeu com o gesto abusadamente burocrático. Há uma semana viajando. O maridinho de 6 anos a busca no aeroporto. De surpresa. Instala-se na calçada. O carro em frente, com o risco de ser multado. E como ela agradece? Com um beijo no rosto, seco e inaudível.

Caminharam para o carro resumindo as prioridades: “Não esqueceu de nada?” “Pagou o IPVA atrasado?” “Tem bateria no seu celular?” “Ligou para o seu pai no aniversário dele?”

Desceram a Avenida 23 em silêncio. Há três meses, eles mal se encostavam. Ela sempre dormia antes. Desde quando se conheceram, há 6 anos, ela dormia antes. Um hábito que não levava em conta quem acordasse antes no dia seguinte. Ultimamente, ele entrava no quarto, e ela dormia de costas, com a cabeça longe.

No começo do namoro, iam para a cama com uma regularidade que irritava os amigos, quando as comparações eram trazidas à mesa. Nas viagens para a casa alugada na praia com amigos, causava admiração constatar que os novos namorados não saíam do quarto. Nem para o pôquer com feijão.

Claro que com o casamento a frequência caiu. Às vezes, uma semana sem trepar. Cíclico: havia semanas que não se desgrudavam, meses que não se tocavam, viagens que dormiam em camas separadas, férias que ficavam colados como um cometa e a cauda. Então, as estatísticas atolaram num pântano perigoso: duas vezes por mês; uma vez por mês. A quantidade reflete a qualidade de um casamento? Qual é o ideal, se é que existe?

Quando os encontros passaram para a média de uma vez por mês, o alarme tocou. Não conversaram sobre isso. Ela era a mesma linda sedutora de antes. Daquelas que envelhecem com metamorfismo: sai a casca juvenil, e se liberta a mulher perfeita. Ele até emagreceu, depois de muito esforço, e começar a nadar junto com ela. Por que não transavam mais, se eram os mesmos que se apaixonaram no primeiro encontro? Porque não eram mais os mesmos.

Só na Avenida Brasil, voltou a falar. Ele perguntou como foi a viagem. Demorou tudo isso, porque temia a resposta. Se ela dissesse “foi ótima”, estava esclarecido o beijo no rosto; foi muito melhor do que ficar com você, naquela nossa rotina abafada, na nossa casa em que nem trepamos mais, até encontrei um pescador meio índio que me virou literalmente do avesso. Mas ela não respondeu e acendeu um cigarro, olhou através janela. Ele se irritou. A sua indiferença ante o tornado de pensamentos e ódio e medo e indecisões que se formava assustava. E pois ela fumava.

Para irritá-lo. Ele parara de fumar seguindo um pacto de ela o seguir, mas ela, que fumava só eventualmente, e não como ele, viciado compulsivo, não cumpriu o combinado. De raiva, ele ligou o rádio na estação de rock e aumentou no punk dos Ramones, que dançou tanto na adolescência: We Are a Happy Family. E cantou:
“We’re a happy family, me mom and daddy, siting here in Queens, eating refried beans…”
“Abaixa um pouco”, ela pediu.
“Por quê?”
“Abaixa…”, ela adocicou a voz.

Obedeceu. Sempre a obedecia, quando ela implorava docemente. Ela deve estar pensando no nativo deitado sobre ela, pescando para ela, subindo em coqueiros para trazer um coco fresco, cabulando os seminários que sua empresa organizou, dançando lambada, enquanto o otário aqui… Na Avenida 9 de Julho, ele resolveu jogar duro:

“Não vai falar como foi a viagem?”
“Cansativa. Desculpe. Estou exausta.”

Ele esperava qualquer resposta. Menos cansativa. Cansativo é ficar neste inferno de cidade do caos. Ninguém se cansa num resort numa ilha baiana, a não ser que se envolva com um nativo e se canse de tanto sexo, sexo que já não pratica em casa.

“Você sabe há quantos meses não metemos?”, ele perguntou.
Ela assoprou a fumaça no rosto dele, jogou a bituca pela janela e comentou ligeiramente impaciente:
“Que romântico… Você fez as contas, é?”
“Fiz. Sabe?”
“Quantos?”
“Três.”
“Três meses? E isso é muito ou pouco?”
“Muito.”
“Você quer parar num hotel agora? Tem um monte por aqui nos Jardins.”
“A questão não é essa.”
“E qual é?”
“Por que não ‘transamos’ mais como antigamente?”
“Não sei. Por quê?”
Devolver a pergunta foi a resposta mais eficaz. Isso mesmo, por quê? Afinal, não era só dela a culpa, se é que culpa seja a conduta a ser empregada.
“Por que casais param de trepar?”, ele perguntou.
“Não sei. Por quê?”
“Tesão acaba.”
“Acaba?”
“Acabou?”
“Não. Sei lá. Acho que não. Acabou?”

O carro parou no congestionamento. Ele pegou um cigarro da bolsa dela. Acendeu no acendedor do carro. E disse, sereno: “Acho que o casamento acabou. E o tesão foi conseqüência. Tudo o que tinha de bom ficou no passado. Por isso, a gente não transa mais. O presente é só ‘quem paga o IPVA’, ‘ligou para o seu pai?’. Rotina.”
“Você quer se separar?”
Ele tragou e a imitou, devolvendo a pergunta:
“Você quer?”
“Porque a gente não ‘mete’ mais.”
“Não é um bom motivo?”
“É. Que chato. Acabar um casamento por causa de sexo.”
“Da falta de”, ele corrigiu.
“Sem sexo, não dá, né?”
“É um sintoma. O primeiro que aparece. De que as coisas não andam bem.”
“E se as coisas não andam bem, é melhor parar.”
“É. Acho que é. Não sei. É?”

Embicou na garagem. O portão se abriu. Entrou com o carro em marcha lenta, até encontrar uma vaga no final, no canto da lâmpada queimada há dias.
“Não pediu para trocaram esta lâmpada?”, ela comentou.

Ele desligou o carro. Olhou para ela. Escorria uma lágrima do rosto dela. Ele a abraçou. Beijaram-se. Ela desatou o cinto e se sentou no colo dele. Logo, ele inclinará o encosto do banco para trás.

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