haja o que hajar

haja o que hajar

Marcelo Rubens Paiva

06 de maio de 2013 | 12h24

 

Quando li sobre o vazio cultural dos dias de hoje, a “imbecilização do Brasil” de Minio Carta, me lembrei de que jornalistas das antigas diziam o mesmo sobre a produção cultural dos anos 1980, da chamada Geração AI-5, ou pejorativamente Geração Coca-Cola, que Renato Russo homenageou emprestando do ideal antropofágico:

“Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial, mas agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.”

Na época, até a coleção de livros Cantadas Literárias, proposta por Caio Graco (Editora Brasiliense), que revelou Reinaldo Moraes, Caio Fernando Abre, Raduan Nassar, Ana Cristina César, Alice Ruiz, Chacal, era taxada de subliteratura. Eu então…

 

 

Desqualificar o novo é um sintoma de desconfiança provinciana, acomodação de quem não quer ver seus conceitos questionados. Temem-se os abusos do que ousam inovar. Como um TOC. Para muitos, o que não é de antes ou do seu tempo, não presta. Rola um apego edipiano aos mentores que, no passado, eram o presente. E uma preguiça de renovar o estoque de conteúdo, discos e livros.

Sou um imbecil feliz. Não vejo vazio cultural em muitos shows, exposições e filmes, nem no que rola pelas unidades do Sesc, Itaú Cultural, Centro Cultural São Paulo, teatros da Praça Roosevelt. Me tocam as peças do Teatro da Vertigem, XIX, Galpão, Tapa, Satyros, Mauro Védia dirigindo Mike Leigh, Kike Dias, Daniel MacIvor, as peças de Monique Gardenberg, Felipe Hirsch, Cemitério de Automóveis, do Oficina, grafites, como de OsGemeos?, as fotos de Sebastião Salgado, tema da última Bravo.

Preciso parar de beber para perceber que o que toca no Studio SP é vazio. Ou melhor, tocava. Não existe mais Studio SP em SP. A casa que oferecia 300 shows por ano cerrou as portas quinta-feira.

“Haja o que hajar”, tatuagem de ombro a ombro de uma garota, que foi amplamente divulgada em redes sociais, não é bem o mercado cultural a expressão da imbecilização brasileira. Os drones do jornalismo de teclado miraram o alvo errado.

 

 

Criolo, Daniel Ganjaman e Instituto, Tulipa Ruiz, Cidadão Instigado, Mombojó, Cérebro Eletrônico, Karina Buhr, Junio Barreto, Davi Moraes, B. Negão, Macaco Bong, Miranda Kassin, André Frateschi, Lucas Santtana, Jumbo Elektro, Maquinado, Mallu Magalhães, Curumin, Guizado tocaram nos palcos do Studio. Mas a valorização imobiliária, que muda a cara da rua mais famosa, a Augusta, vaidosa e democrática, passa uma escavadeira nos pilares da boemia, para a construção de torres residenciais e apartamentos de 30 m2.

Há oito anos, meus amigos comentavam sobre a nova casa de shows. Na época, era na Vila Madalena. Mas nunca me convidavam. Eu achava que não era mais querido pela turma. Havia um complô? Nada disso.

Havia era um baita obstáculo, tecnicamente conhecido como barreira arquitetônica: uma escada estreita que afastava qualquer pessoa com necessidades especiais. Descobri que a casa era de dois amigos antigos, Maurizio Longobardi, italiano gente boníssima do Grazie e Dio, casa de shows que tem rampas e banheiro adaptado, e Guga Stroeter, que frequentou minha casa, muitas vezes, empurrou minha cadeira de rodas, além de Alê Youssef. Fiquei furioso. Me traíram!

A raiva se transformou em obsessão. Legislando em causa própria, acionei contatos na Prefeitura, denunciei neste jornal, cobrei da então secretária Mara Gabrilli uma posição da fiscalização, mandei e-mails irados, praguejei. Lógico. Eu não queria ficar de fora. E conhecer o terraço ao ar livre que tanto comentavam. Por fim, reformaram a casa. Encontraram um espaço e instalaram um elevador (caríssimo). O chamaram de Plataforma Marcelo Paiva.

Primeiro show a que consegui assistir no Studio Vila Madalena: Del Rey, banda pernambucana que toca Roberto Carlos em ritmo de samba-rock. China, o cantor, o melhor rebolado da noite, que tem até uma popular comunidade numa rede social dedicada a ele, ao rebolado, desceu no meio do show e me deu uma flor. Fui amansado e conquistado.

Meses depois, ironia, o Studio se mudou para Rua Augusta. Dessa vez, de fácil acesso. Que, depois do Vegas, se tornou a rua da mistura: boates tradicionais com inferninhos e pulgueiros, mais rock, samba, pés sujos, teatros alternativos, cinemas de rua, garotas de vida nada fácil, cafetões.

Vi shows inesquecíveis como de Otto lançando o disco Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, 3 Na Massa com todas as divas no proscênio, Leandra Leal, Ceu, Nina Becker, Karine Carvalho, Pitty, Thalma de Freitas, sob a batuta do maestro Pupilo, vi o frevo penetrar no rock da banda Eddie e Mombojó, os ensaios do bloco de carnaval que fundávamos, com a bateria do Quizomba e Simoninha cantando “apavora, mas não assusta”.

O trecho da rua perdeu a fama de mau. O Baixo Augusta virou símbolo da vibrante noite paulistana. Os imóveis se valorizaram. A vida noturna que a ressuscitou foi punida. O mercado manda. É estranho ver espigões se erguendo onde a cidade se diverte. Claro, os novos moradores irão reclamar do barulho. Claro que a fiscalização agirá. E um polo de cultura será extinto.

Talvez haja também imbecilização na falta de planejamento urbano, de percepção da vocação de cada bairro e destruição de onde há cultura de primeira.

Haja o que houver, ela renascerá em outro lugar.

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