gigante precisa de vacina

gigante precisa de vacina

Marcelo Rubens Paiva

03 de julho de 2013 | 10h16

 

No Brasil de hoje, os conflitos de uma sociedade mobilizada acabam interferindo na rotina de uma família que “despertou”.

Os protestos de rua e a indignação coletiva promovem uma nova forma de ativismo doméstico.

Como na família de Jurandir.

Um honesto gerente de estoque, que chegou em casa no começo da noite, olhou para os lados, não viu ninguém suspeito na calçada, encostou o Pallio 1.5 na garagem, abriu o portão com o controle remoto, estacionou, desligou o carro, fechou o portão e respirou aliviado.

Sobrevivi.

Atravessei uma cidade de fúria e caos, encontrei rotas que fluíram, lutei como um cavaleiro medieval por espaços nos cruzamentos, enfrentei a ira dos concorrentes no congestionamento monstro sem perder o foco.

Jurandir desligou o cronômetro. Uma hora e 57 minutos para chegar em casa. Comemorou. Anotou na agenda que guardava no porta-luvas: 1h57. Olhou na planilha os dias anteriores. Era das melhores marcas.

Fechou os olhos.

Dormir agora seria bom: o sono merecido do guerreiro que rala o dia inteiro.

Poderia estar sob o sol de Peruíbe.

Até a voz do caçula reverberar entre as ondas do mar, competir com o som repousante de um jogo de tamboréu. Parecia urgente. “O gigante, o gigante…” Abriu os olhos com o filho batendo na janela do carro. Como estou estressado. Como preciso de um café. Como é que é?

“O Gigante acordou! Precisa levar no veterinário!”, gritou o moleque.

E nem tinha desatado o cinto. Já começava o segundo tempo: gerenciar os problemas comuns de uma família comum em dias históricos.

“Fala com sua mãe.”

“Saiu.”

“Sua irmã?”

“Saíram todos.”

Quase hora da janta. Deixaram o moleque sozinho?

“Precisa levar no veterinário.”

“Já ouvi.”

Pegou sua pasta, desceu do carro. Entraram pela cozinha.

“Liga pra sua mãe?”

“O celular não pega.”

“Ela disse pra onde ia?”

“Manifestação.”

“PEC 37?

“Fora Feliciano.”

“E sua irmã? PEC 37?”

“Já foi rejeitada pela Câmara, pai. Ia no Passe Livre, mas o cartaz dela não tinha nada a ver com isso.”

“O que dizia, Hospital Padrão Fifa?”

“Não posso dizer.”

“Fala, o que estava escrito no cartaz?”

“Não.”

“Te dou cinco.”

“Vinte.”

“Dez.”

“OK.”

Serviu o café morno e já adoçado da garrafa térmica, tomou um gole, olhou a carteira. Tirou uma nota de dez, a única nota que tinha.

“Não Sou Puta.”

“O quê?!”

“Tava no cartaz.”

“Sem vergonha! Ela foi pra Marcha das Vadias! Foi vestida, pelo menos? O que está acontecendo com essa família?”

O moleque arrancou a nota da mão do pai.

 

 

Entrou apressado o filho mais velho, com um saco de lixo preto que embrulhava algo pesado. Escondia alguma coisa. Tentou apressadamente ir para o quarto, quando o pai impediu.

“O que você estava aprontando?

“Nada, pai, estava protestando, mudando o Brasil. Desculpe o incômodo, beleza?”

O filho segurou o embrulho nas costas. O pai num gesto rápido o arrancou. O filho pegou de volta. Lutaram pelo saco de lixo, que rasgou em dois. Um objeto redondo caiu no chão, estalou e rolou para debaixo da mesa. O pai correu para verificar. Não era uma bola. Era duro. Tinha viseira. Cores de camuflagem. No topo, lia-se: Tropa de Choque.

“Você é um vândalo. Roubou este capacete?”

“Não sou vândalo. Nem arruaceiro. Sou radical. Isto é espólio de guerra. Me dá!”

Arrancou da mão do pai.

Quando entrou pela sala a filha com a cara pintada, sem camisa, com estrelas nos bicos dos seios, e escrito com batom no peito: IMORAL É O SEU PRECONCEITO.

“Ponha já uma camisa!”

Atrás dela, dois PMs pediram licença, entraram e cumprimentaram o pai, o filho mais novo, enquanto o mais velho embrulhou seu espólio com um pano de chão e correu para o quarto num pulo.

Antes que o pai perguntasse, a filha logo explicou: “Passaram para o nosso lado.”

“Que lado?”

“Dos explorados.”

E saiu para se vestir.

“Desculpe, mas elas gritavam o tempo todo: ‘você que é explorado, passe para o nosso’…”

Tiraram os capacetes, os cintos com cassetete, spray de pimenta e algemas.

“Podemos nos sentar, estamos exaustos. Trabalhamos muito nesse mês.”

“Todo dia agora é um dia histórico”, comentou o outro.

“Os senhores têm mandado?”, Jurandir perguntou.

“Vocês estão com fome?”, perguntou a filha voltando com a cara lavada e uma camiseta da banda Pussy Riot.

“Podemos pedir um McDonald’s”, sugeriu o caçula.

“Foi queimado por vândalos mascarados”, lembrou um PM.

“Pizza”, sugeriu a filha.

“Preciso ir no baco sacar algum”, pensou alto o pai.

“Foi depredada por arruaceiros”, lembrou o outro PM.

“A pizzaria?”, perguntou o pai.

“O banco.”

“Tem a lasanha congelada. Está sem tempero”, sugeriu a garota.

Os PMs sorriram satisfeitos. Àquela altura, comeriam até sola de coturno.

Ela tirou a lasanha da geladeira. O pai preocupado andou pela casa, buscando um canto em que o celular tivesse sinal. Se ao menos lutassem por um 3G decente, pensou. A lasanha foi para o micro-ondas.

Um dos PMs ajudou a colocar a mesa, enquanto o outro sociabilizou.

“Que gracinha, é chihuahua, né? São inteligentíssimos. Como se chama?”

“Gigante. Precisa ir pro veterinário”, disse o caçula

“O Gigante tá doente?”

“Precisa de vacina.”

O forno apitou. A filha tirou a travessa e colocou na mesa. Deu uma prova. Estava sem gosto.

“Com licença”, ela disse, pegando o tubo de spray do cinto do policial.

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