Fuvest ignora literatura feminina

Fuvest ignora literatura feminina

Marcelo Rubens Paiva

16 de maio de 2016 | 13h27

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Mulheres estão em baixa?

Se te incomoda a falta de mulheres no novo governo Temer, exatamente no ano em que se vê o florescer da PRIMAVERA FEMININA, especialmente no Brasil, em que uma nova geração de garotas nas ruas ou nas redes protestam contra assédio, criminalização do aborto ou machismo na política, eis a surpresa:

Nos livros exigidos pela Fuvest para o vestibular da USP de 2017 até 2019, não há uma autora mulher.

São nove obras de nove barões da literatura: Iracema (José de Alencar), Brás Cubas (Machado de Assis), O Cortiço (Aluísio Azevedo), A Cidade e as Serras (Eça de Queirós), Capitães da Areia (Jorge Amado), Vidas Secas (Graciliano Ramos), Claro Enigma (Drummond), Sagarana (Guimarães Rosa) e Mayombe (Pepetela).

Está certo que é o que há de melhor na literatura com testosterona escrita em português.

E que há em Iracema uma visão romântica da mulher, e em Brás Cubas um solteirão serdutor apaixonado.

Temos Drummond, um poeta de alma feminina.

Mas falta a visão de mundo delas.

Nada de Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, nossa candidata ao Nobel, Cecília Meireles, Ana Cristina César, homenageada neste ano na FLIP, Ana Miranda, Cora Coralina, Hilda Hilst, Rachel de Queiroz, a imortal Nélida Piñon, a eterna Zélia Gattai, Lya Luft, Pagu!

Nem as atualíssimas Fernanda Young, Marina Colasanti, Eliane Brum, Martha Medeiros, Clarah Averbuch, Verônica Stigger, Bia Bracher, Fernanda Torres [esqueci um monte, sorry].

Nada.

Só macho de cartola e bengala.

Fora do tempo, hein?

O Vestibular Unicamp 2017 inclui ao menos Laços de Família (Clarice).

Uma entre 12 livros indicados.

Isso sim é um atentado contra a nossa inteligência e os novos tempos.