funil dell’amore

funil dell’amore

Marcelo Rubens Paiva

08 de março de 2011 | 02h27

Carnaval. Que massacre de aves…

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“Bruna Surfistinha diz ter saudades da liberdade da prostituição”, esteve na capa do UOL.

“Não sinto falta da prostituição em si, mas dessa sensação de liberdade. Eu não tinha ninguém, mas não tinha cobrança”, disse ela na entrevista.

Não é a mesma coisa, é?

Tudo bem, vai.

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Nos dias de hoje, com um olho nas estatísticas e outro ao redor, muitos não acreditam na verdade do amor profundo.

Nem que é possível encontrar a outra fatia da laranja, o fogo que aquece a lareira, o alho que dá gosto ao Oswaldo Aranha.

Não se sabe ao certo quando o romantismo- exercício platônico cuja efetividade é duvidosa para os céticos- passou a atormentar a espécie humana.

Prova de que ele entra em declínio é o comportamento dos adolescentes, que se antes se assustavam com o olhar alucinado de Christopher Lee, hoje se apaixonam por vampiros virgens com o topete pega-rapaz de James Dean.

Sejamos piegas.

Digamos que, sim, o amor existe, não acaba, é como um raio galopando em desafio, e, acima de tudo, só ele constrói.

Para ele nascer e atravessar espinhosas veredas, uma infinidade de barreiras precisa ser transposta.

É como nadar contra a corrente do pessimismo, porque muitos elementos conspiram contra.

A começar pelo espaço de ritualização e demonstração de habilidades físicas para a corte, conhecido como balada. A abordagem entre machos e fêmeas dependerá do local escolhido. Tome como exemplo boates, baladas e danceterias que São Paulo abriga ou já abrigou.

O encontro será tolerante e politicamente correto, se o nome for inspirado em George 6º, o rei gago, como Radar Tan Tan e Rose Bom Bom. Será místico, se a balada tem um nome bíblico, como Hell’s, Heaven, Inferno. Pode ser de amantes da natureza, se acontecer nos espaços dançantes inspirados na Arca de Noé, como Lion’s, Hipopotamo’s, Papagaio’s, Girafa’s.

Ou pragmático, se o começo rolar naqueles espaços cujos proprietários não queimaram os neurônios e os chamaram pelo primeiro nome que veio à cabeça, como Número ou Secreto.

Mas será com emoção redobrada e hardcore, se a balada do primeiro encontro tem nome de um lugar em que houve um derramamento de sangue sem precedentes, como Sarajevo e Hiroshima.

Dependendo do espaço-balada, pode-se traçar um perfil aproximado do que se tem pela frente. No entanto, é só o começo.

Como desenvolver uma conversa apropriada, vulgo xaveco, perante a insistência do animador de plateia, vulgo DJ, em manter o volume alto da música pulsante e vibrante, vulgo bate-estaca? E que assunto pode ser abordado entre um pisão e um empurrão?

Lógico que a espécie humana, conhecida pelo seu talento de comunicação e convivência grupal, desenvolveu uma técnica que não permite que ela sofra qualquer risco de extinção. E passou a gritar: “Me adiciona!”

Surge mais um empecilho. Adicionar onde? Ela disse Face? Mas eu só tenho Orkut. No Hi5?! Que é isso?

Ultrapassada a etapa de qual rede social os dois passarão a se comunicar, com expressões extravagantes e em códigos como “kd vc”, ou de correrem o risco de ler “quem é vc mesmo?”, segue o segundo encontro, aquele em que dá dicas da personalidade do investimento, vulgo ficante.

Ela curtiu o filme de ação em que morrem todos, menos o herói, e os vilões se dão mal, popularmente conhecido como filme de menino. E ele se comoveu com o filme em que não morre ninguém, apenas a heroína, e os vilões se dão bem, popularmente conhecido como filme de menina.

Neste espaço escuro e apropriado, foi estabelecido o primeiro contato físico, conhecido como uns amassos.

Antes que a cópula seja estabelecida, o macho leva a fêmea para jantar num estabelecimento dispendioso, por conta dele, em que, caso a relação dê certo e tenha futuro, será a primeira e última vez em que irão. Juntos. E em que ele não dirá: “Bora rachar?”

Então, a verdadeira prova se inicia. Começam a se questionar onde residem. E a avaliar o zoneamento que possibilita as relações. No caso de São Paulo, um sujeito da zona oeste não namora com uma garota da zona sul.

É mais fácil (e barato) para ela se relacionar com alguém que mora em Cuiabá, já que está perto do Aeroporto de Congonhas, do que atravessar a cidade para o cineminha das nove. E, dependendo da promoção, gasta menos com uma companhia aérea do que com um táxi sem ar-condicionado; e ainda se livra da vozinha irritante do GPS do motorista.

Digamos que o casal em potencial more perto, há um segundo problema. Na rua dela tem zona azul. Logo, toda a vez que ele dormir lá, terá que acordar antes das 8h para preencher um cartão.

E, para piorar, a região dele alaga. Ela não quer acordar e ver pela janela seu carro boiando sobre um rio barrento, que antes ela jurava que era uma rua pacata e arborizada.

Outros degraus aparecem para serem transpostos. Ele terá de ser aceito pelo amigo gay dela, amigo com quem ela passeava, viajava e trocava confidências, e que sofrerá um ligeiro ciúmes por perder a exclusividade.

Ela terá que aguentar as três ex dele, que ligam deprimidas no meio da noite, porque acendeu uma luzinha no painel do carro. E escutará com paciência ele perguntar com carinho “você colocou combustível?”, porque sabe que muitas só resolvem um problema quando ele começa, e que a maioria das mulheres anda com o carro na reserva.

Há mais. Ele gosta de Carnaval em Trancoso. Tem até um CD da Ivete no carro. Ela prefere uma praia deserta de Floripa e participou da manifestação de queima de abadas realizada no último verão.

Ela gosta de salmão, ele de atum. Ela passa os sábados entre depilação, salões de beleza, e faz a sobrancelha na Penha. Ele curte um churrasco na piscina do condomínio. Ela gosta de sexo de manhã. Ele à noite.

Mas numa coisa concordam, e talvez esteja aí a liga fundamental: Oswaldo Aranha ideal é malpassado.

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