Fui ao Radiohead e não me matei

Fui ao Radiohead e não me matei

Marcelo Rubens Paiva

23 Abril 2018 | 11h03

 

Calma lá, é das minhas bandas favoritas.

Mas posso dar uma de velho chato dos anos 1980 (quando íamos a shows nem tanto para curtir, mas ouvir e criticar)?

Fui ao Radiohead, não me matei, e confesso que no começo me entediei.

A acústica de arenas é, uma pena, mas é a culpa da Física, pior que a de um campo aberto.

Primeiro, se você não ouvir Radiohead com o som afiadíssimo, bem passado, num local com boa acústica, é melhor nem ouvir.

Cada um dos músicos, Thom Yorke, Jonny Greenwood (na lista dos maiores guitarristas de rock de todos os tempos), Colin Greenwood, Ed O’Brien e Phil Selway, é independente e parte do todo, como um instrumento fundamental de uma sinfonia.

Ninguém está para fazer apenas a base.

Sem contar que, há nove anos, a banda realizou um dos shows mais inesquecíveis e mágicos da cidade, na Chácara do Jóquei, cercada por neons gigantes, com um repertório recheado de sucessos.

Para o velho chato que nasceu na era do vinil, o som de ontem em São Paulo, que começou pontualmente às 20h, no Allianz Parque, começou embaralhado.

Não se ouvia o contra-baixo de Colin, peça fundamental para o andamento das músicas. A bateria parecia distante. Só pela sexta música, ufa, a mesa de som acertou.

E, tá, todos os fãs sabem: a banda não entra em onda comercial, não faz concessões, não toca sucessos fáceis, não faz rimas, nem refrões, sem dididi, dadadá, mal interage com a plateia.

É a segunda vez que eles vêm ao Brasil e só aprenderam a falar “obrigado”.

Radiohead não é Coldplay, nem nunca quis ser.

Porém… Talvez devesse, sim, na humildade, tocar mais sucessos antigos, que nem são tão antigos (de 15, 20 anos atrás).

Pagamos caro pelo show. Muito caro.

Na média, a banda vem ao Continente uma vez a cada década.

Creep, como anunciado, ficou de fora (a Satisfaction deles), tocada em 2009. E muitas outras.

Outra constatação.

Os primeiros álbuns, quando ainda se faziam discos conceituais, herança do vinil (e da revolução que começou com Beatles), Pablo Honey, The Bends, OK Computer, Kid A e Amnesiac, são bem superiores aos que vieram nessa década.

Hail to the Thief, de 2003, é uma obra prima (tocaram o hit There There, mas não A Wolf at the Door, que tocaram em 2009).

Em 2003 foi quando a banda largou a gravadora EMI e partiu para os discos liberados pelo download pague-quanto-pode.

No show de ontem, meou clássicos com novidades mais fracas, que são boas para se ouvir deitado, num gramado, olhando as estrelas; o tempo estava encoberto, assim como o gramado.

Momento em que voltávamos para a bolha, em nossas redes sociais, dos celulares pessoais, algo impensável nove anos antes.