fragmento

Marcelo Rubens Paiva

19 de abril de 2012 | 12h27

Estou de passagem nesta vida. Estamos todos. Por que não dizer o que se quer dizer? Por que esconder a maior fantasia? O que eu perco, mostrando o que ambiciono? Eu enlouquecia. A loucura é um duto por onde escoam a coragem e a irresponsabilidade. Eu não tinha nada no mundo, a não ser aquele quarto escuro e livros embolorados. Eu estava cagando pra tudo. Normas e convenções… Fazia da minha vida uma trama ficcional. Com 18 anos, eu era um monstro, capaz de tudo, menos ser conveniente. Andava pelo campus da universidade, simplesmente chegava para as mulheres e dizia:

“Prometi a mim mesmo que hoje eu daria um beijo na boca de alguém. De língua. E a vi aqui parada, fumando este cigarro. É você. Vamos. Posso te beijar? Um beijo longo. Eu quero, você talvez queira, nem a conheço, vamos, vai?”

Fui bem-sucedido algumas vezes. Existem sempre garotas da USP com um parafuso a menos, solitárias, estranhas, interessantes. Beijei uma que insistia em tomar banho de sol nua na piscina. Beijei, e depois trepamos no bosque. Beijei outra que corria à pé na ciclovia. Não trepamos. Comi uma que rangava sempre sozinha no bandejão, lendo Maiakovski, e tinha os mesmos olhos tristes e confusos que ele. Eu, sempre com a mesma abordagem. Claro que a maioria riu da minha cara, ou ignorou, ou se assustou, ou xingou, o que me dava mais prazer do que se aceitassem o confronto. Eu me travestia de sádico. Era o tirano em busca de experiências infringentes. Auto-flagelação.

É bom pra caralho ter 18 anos.

Todas têm um ponto fraco. A jovem quer ser vista como uma experiente mulher. A mais velha quer reviver as loucuras de tempos atrás. Elas mentem quando dizem que desejam um homem gentil, sensível, educado, bem vestido. É a velha história, você sabe: a desleixada quer um príncipe, a fina quer um puto. Acho que a maioria das mulheres quer o avesso do que pensa que quer.

 

do livro Malu de Bicicleta; Editora Objetiva, 2002

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