Fora de moda

Fora de moda

Marcelo Rubens Paiva

26 de setembro de 2009 | 12h53

Em cartaz, enfim, CHE 2 – A GUERRILHA, a segunda parte do épico de 4 horas sobre Guevara, do cineasta norte-americano Steven Soderbergh. A Crítica se dividiu. O público não se animou muito- o filme já foi deslocado pelas distribuidoras para salas menores, apesar de ter estreado há uma semana.

Se a primeira parte retratou a tomada de Havana, do início, no México, quando Che Guevara- interpretado por Benicio Del Toro – conhece Fidel Castro, desembarca na Ilha, se instala na Serra e começa a revolução, a segunda parte mostra a decadência do seu projeto na BOLÍVIA, onde lidera uma guerra de guerrilha sem apoio popular, nem do PC boliviano, e onde é fuzilado e enterrado.

O interesse pela segunda parte despertava ansiedade entre os fãs da história e do personagem controverso. Haveria isenção? Quem seria retratado como mocinho ou bandido?

Afinal, Che aparecia de volta à luta armada quando Cuba já demonstrava a faceta stalinista da sua revolução: pelotões de fuzilamento, censura, prisão e exílio dos opositores e filiação ao bloco soviético.

Seduzia os jovens revolucionários dos 4 cantos. Inspirava outros movimentos revolucionários. E uniu a direita.

O filme começa com Che chegando disfarçado em LA PAZ- semicareca, cabelos grisalhos, óculos e dentadura postiça. Aliás, ele atravessou o Brasil com apoio de um grupo da ALN, organização brasileira de luta armada, liderada por MARIGHELA, cujos componentes treinaram táticas de guerrilha em Cuba e receberam o aval de Fidel para iniciarem a revolução patropi, apesar de não contar com o apoio do PCB.

Interessante como CHE não se instalou no Brasil. Por que escolheu a BOLÍVIA? Porque acreditava que os movimentos dos mineradores se levantariam contra o governo local. Não rolou. Como não rolaria por aqui.

Logo ele vai para a mata, instala o seu campo de treinamento, com a ajuda de outros cubanos. Revela-se, enfim, que o Partido Comunista local, assim como todos os PCs espalhados pelo continente, também não apóia a opção pela luta armada. O projeto é só deles. Com financiamento cubano [ouro de Moscou?] e o apoio de guerrilheiros locais.

Sobrava dinheiro. Faltava convicção ideológica. Os camponeses da região, ao invés de aderirem, deduravam.

A guerrilha não dura mais do que 350 dias. É massacrada por forças de repressão, treinadas pelos americanos. O filme se baseia nos diários de Che. E, como ocorreu em outros campos, a população não se levantou contra o sistema.

É um filme isento, sim. Che, que liderou um pelotão de fuzilamento em Havana, até foi cobrado por um cubano que auxiliava a repressão: “Você matou o meu tio.” “Era um traidor”, responde de batepronto um Guevara doente, magro, rendido e amarrado.

Parece uma história de outro planeta. Jovens que largam tudo, entram para a clandestinidade, circulam por montanhas que não conhecem, passam fome e frio, adoecem, enfrentam tropas numerosas e mais bem armadas, em busca de um projeto longínquo, de uma liberdade utópica, platônica, ingênua [juvenil], que seguia os manuais leninista e funcionou no Vietnã e na Ilha.

Mas são massacrados por uma violência desproporcional.

Che sobrevive. Pôsteres, camisetas, bandeiras. Até no bíceps tatuado de Maradona. Para alguns, era um bandido comunista impiedoso. Para outros, o romântico que largou o conforto para ajudar outros povos. Virou símbolo POP.

Personagem bom é aquele contraditório, complexo, conflituoso. E CHE é um tremendo personagem.

Os cinemas estão vazios, pois no Brasil até a esquerda quer ser capitalista, defende o mercado aberto, quer produtos de consumo às massas, ocupar a Amazônia, para exportarmos soja e carne, vender e vender. Tal projeto dá lucro aos bancos, pecuaristas e industriais. É quase uma unanimidade a privatização dos serviços- inclusive do serviço público, que se terceiriza ou vende ações nas bolsas.

No Brasil, poucos dão bola atualmente para os ideais de CHE. Ou para qualquer ideal- até nos unimos ao Irã, que nega o holocausto, assusta o mundo com suas ambições nucleares, mas compra nosso frango congelado.

CHE está mais anacrônico do que nunca.

E nunca esteve tão barato comprar carros, eletrodomésticos e viajar para o exterior, para comprar camisetas com o seu rosto estampado.

+++

Olha que mesinha mais safada na BIENAL DO LIVRO do RIO DE JANEIRO, discutindo… OS MACHOS. Quem viu, viu.


CONSEGUI FAZER MARCELO MIRISOLA RIR

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.