foi-se o magrão

Marcelo Rubens Paiva

04 de dezembro de 2011 | 13h21

 

Era começo dos 80, quando recebi uma camisa autografada por todo time do Corinthians escrita: “Ao exemplo da raça corintiana”.

Não havia logo de uma empresa, já que patrocinadores temiam o movimento que ocorria no Parque São Jorge, a Democracia Corintiana.

Foi quando WASHINGTON OLIVETTO bolou o símbolo da DC no formato da Coca-Cola, empresa que patrocinava a maioria dos times brasileiros, sugerindo que a democracia deveria ser consumida como 1 produto de massa.

Era este logo que estava impresso nas costas da minha camisa, acima das assinaturas.

Com as DIRETAS JÁ, me aproximei dos meus ídolos, SÓCRATES, CASÃO, WLADIMIR.

A amizade ficou.

Especialmente com o DOUTOR, que me chamava de MARCELINHO.

E com quem tomei algumas em bares da boemia profissa, da classe teatral, em SP ou em RIBEIRÃO.

Nosso último encontro foi há 3 meses, na casa dele, em Alphavile.

Um jantar marcado antecipadamente.

Me perdi pelo bairro. Liguei para ele, que me passou as coordenadas. Entrando em ruelas que pareciam as mesmas, vejo um sujeito magro, alto, me acenando no meio do asfalto. Era ele, que foi me resgatar a pé.

Pizza, vinho, papo e papo.

Que não acabava mais.

Cara afetuoso, simples, concentrado, irônico.

Contou de viagens recentes ao exterior.

Num momento, perguntei se ele ainda era lembrado como grande craque.

Me surpreendeu ao dizer que era mais lembrado por suas posições políticas.

Saí de madrugada de lá. Com a promessa de voltar.

SÓCRATES era único.

Jogador com diploma de médico.

Comemorava o gol com o punho esquerdo levantado.

Usava a barba dos revolucionários.

Tinha um passe preciso. Usava muito o calcanhar, porque dizia que era mais simples do que virar o corpo.

Nos encontrávamos em muitos shows, com os irmãos RAÍ e RAIMAR.

Como sempre, parecia um sujeito comum, que gostava dos agitos da cidade.

Lá se vai o MAGRÃO, cedo demais.

Tinha muitos planos, como programas de TV.

Queria investir no jornalismo, para denunciar.

INQUIETO.

Perdi 1 amigo.

E o Brasil perdeu 1 herói.

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