A vantagem de terem chamado as Forças Armadas

A vantagem de terem chamado as Forças Armadas

Marcelo Rubens Paiva

25 Maio 2017 | 11h45

Nilton Fukuda/Estadão

 

Desde junho de 2013, um grupo barulhento de militantes e organizações pedem uma intervenção militar, para debelar a crise política que parece não ter fim.

Na Avenida Paulista, eles têm uma esquina cativa, a da Pamplona, que, sobre carro de som, despejam palavras de ordem pela volta dos militares em manifestações contra Dilma e em defesa da Lava jato.

Ontem, chamaram. E foi o atual presidente da República quem chamou. Hoje, voltou atrás.

Por que a sociedade reagiu. O Conselho Nacional dos Direitos Humanos protestou.

Jornais em editoriais, a classe política e jurídica contestou.

Deputados tomaram a mesa da Câmara. Protestaram. Partiram em passeata pelos corredores.

Debates acalorados no Senado. O líder do PMDB, Renan Calheiros, contestou.

No Supremo, nos gabinetes, nas redes sociais, uma unanimidade: ninguém queria o Exército, não agora.

De um lado: a interpretação de que um governo que mal se sustenta em pé, que pode ser “impichado” ou cassado pelo TSE, apelou e chamou as tropas para se segurar no Poder.

Do outro: imagens de PMs atirando com trinta-oitão contra manifestantes diante dos Três Poderes; fogo e depredação em pelo menos cinco ministérios; mascarados com escudos improvisados partindo para cima da PM; barricadas.

Tudo o que se via ao vivo pela TV justificava urgência.

A manifestação fugira do controle dos organizadores, que pediam para manifestantes voltarem ao estádio Mané Garrincha.

Rodrigo Maia teria pedido a Força Nacional, para proteger o patrimônio e o livre exercício do debate democrático. Corretíssimo.

O presidente mandou Forças Armadas, num comunicado lacônico, de meio parágrafo, transmitido ao vivo, pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann.

Muitos pensaram: ele deve ter se confundido, ao invés de dizer Forças Especiais, disse Forças Armadas.

Não, ele disse certo.

Nessas horas, recorremos ao especialista Roberto Godoy: 1,4 mil combatentes do Comando Militar do Planalto (CMP) e dos Fuzileiros Navais receberam a missão de exercer força necessária para proteger prédios da Esplanada do Ministério, uma “tropa que não é de brincadeira”.

O Comando de Operações Terrestres posicionou a tropa. Forças Armadas, alguns com M16, rifle americano de um metro, automático e semi, de 800 disparos por minuto, alcance de 650m, calibre 223 Remington, um veterano, cuidariam dos prédios. A PM do gramado.

A tarde foi quentíssima.

Repórteres narravam ao vivo o caos, como a queda de um Zeppelin.

Jungmann não deu entrevista nem explicações.

Comunicou e saiu.

Maia negou o pedido.

Jungmann reapareceu para explicar que imagens de PMs atirando e prédios em chamas levaram à decisão histórica.

Só à noite, numa entrevista a Gerson Camarotti (Globo News), deu outra versão.

O ministro disse que, sim, Maia pedira Forças Especiais, que estão espalhadas em conflitos pelo Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, e que só havia cem soldados delas estacionados em Brasília.

Diante da urgência, e em acordo com o general Sérgio Etchegoyen, e da falta de homens, chamou o CMP e os fuzileiros.

Hoje, voltaram atrás.

E elas voltarão aos quarteis.

Imagens do passado vieram à tona.

Traumas do passado se reacenderam.

Numa vez em que elas foram chamadas, ficaram 21 anos no Poder.

Foi bom ter chamado o Exército.

Como assim, é ele mesmo, Marcelo Rubens Paiva, afirmando esta aberração política?!

Traiu seu pai, seu passado…

Sim, sou eu mesmo, Marcelo Rubens Paiva, que vivi o Golpe de 1964 no olho do furacão, estiva com meu pai e minha família exilado na Embaixada da Iugoslávia, cassado no AI-1, fizeram até a festa do meu aniversário lá dentro dos muros, vi ele, seus amigos (com seus filhos, meus amiguinhos) partirem para o exílio, alguns voltaram só em 1979, vimos ele arriscar e voltar antes, vi a casa ser invadida por homens da Aeronáutica em janeiro de 1971, levarem meu pai, e no dia seguinte minha mãe e irmã para o DOI-Codi, um laboratório de tortura, não vi mais meu pai, desaparecido político, fui para as ruas na juventude, lutar pelo fim da ditadura e depois pelas Diretas Já, fiz lobby com deficientes na Constituinte, me filiei ao PV, já exerci meu direito ao voto com prazer, já votei em FHC, Lula, até em Aécio…

 

Aniversário na embaixada com filhos de exilados

 

Repito, foi bom terem chamado as tropas.

Para unir democratas.

Pois é preciso repensar o Brasil, a política, encontrar um consenso razoável, um governo digno do mandato, um Congresso com ficha limpa.

Precisamos não fazer da democracia um banco de negócios escusos que enriquece uma classe política bandida e empobrece a Nação.

Não podemos brincar com a democracia ou jogá-la no lixo.

Iremos todos nos arrepender depois.

Sim, foi bom ter chamado as tropas. Elas não ficaram (nem queriam). São outros tempos.