Flagrantes de uma São Paulo fantasma

Flagrantes de uma São Paulo fantasma

Marcelo Rubens Paiva

07 Junho 2018 | 14h02

 

 

A paisagem sem começo, meio e fim de São Paulo é arte.

Anitta Mafaldi explorava a sua gente. Gregório Gruber, a paisagem noturna.

O ilustrador e ator Carcarah, a toxicidade.

Ele é desses caminhantes solitários que resgatam a paisagens de uma São Paulo apocalíptica, degradada, deserta, com o passado glorioso sobreposto pela anarquia do “pixo”.

Aquela em que poucos prestam atenção na beleza oculta pela fiação e abandono.

Como o edifício ainda intacto e já ocupado Wilton Paes de Almeida, que desabou depois de um incêndio há exatamente um mês, no Largo do Paiçandu.

Que poucos sabiam se tratar de um marco na arquitetura modernista.

Ele abre hoje no Baixo Augusta (Teatro & Bar Cemitério de Automóveis, Rua Frei Caneca, 384), sua sexta exposição individual com 26 obras em te?cnicas de aguada, nanquim e marcadores: São Paulo Fantasma

Carcarah já foi publicado pelas revistas Rolling Stone, Coyote, Jazz + e pela Folha de São Paulo.

Ilustrou capas de livros para as editoras Martins Fontes, Córrego, Atrito Art, Edith e Alaúde, além de diversas capas de CDs. Já expôs em coletivas em São Paulo, Salvador e Portugal.

Ele diz:

“Eu gosto de desenhar São Paulo. Difícil é encontrar poesia no meio de todos esses cabos e fios e tantas janelas, árvores esparsas amordaçadas dentro do concreto e todos esses carros e pessoas apavoradas circulando freneticamente pela metrópole tóxica. São Paulo é uma cidade cruel e injusta. Ela é o travesti que dopa seu drinque numa noite qualquer, o traficante viciado que te vende droga falsa, o policial que estapeia sua cara. Talvez por isso eu goste de desenhar a São Paulo das madrugadas de domingo e segunda-feira, enquanto todo mundo se encolhe e dorme, seja num quarto em casa ou nas ruas entre papelões e cobertores, e apenas os ratos e baratas tomam conta das ruas do Brás e do Parque Dom Pedro II, da Lapa e da Barra Funda. As paredes descascadas dos prédios e das casas, o pavimento com naipe de cidade síria bombardeada, as antenas e os telhados, tudo ganha outro significado pra mim. O cheiro de podridão nas ruas. O som da metrópole assombrada e cheia de fantasmas parece um lamento perdido na noite, como o a sirene de uma ambulância cortando a Radial às 5h23 da manhã. Eu gosto de São Paulo de madrugada.”

ABERTURA: dia 07 de junho (5ªf), às 19h

LOCAL: Teatro & Bar Cemitério de Automóveis

Rua Frei Caneca, 384 – Consolação / SP  Tel: (11) 2371-5743

VISITAÇÃO: 3ª a domingo das 19h às 23h  – até 08 de julho