filme censurado é ruim demais

filme censurado é ruim demais

Marcelo Rubens Paiva

10 Julho 2012 | 13h22

 

Enfim o juiz da 3ª. Vara de Justiça de MG, Ricardo Machado Rabelo, liberou a exibição do longa A SERBIAN FILM – TERROR SEM LIMITES, considerando que não há mais “razões de natureza jurídica que impeçam a exibição do filme”.

No ano passado, ele teve sua cópia apreendida pela Justiça do Rio de Janeiro e sua exibição proibida por liminar do Ministério Público Federal. A acusação: “apologia a crimes contra crianças e inventivo a práticas de pedofilia”.

Desde a Constituição de 1988 que vivemos este imbrólio jurídico.

O artigo 5º foi simbólico e muito comemorando na Constituinte, especialmente depois de sairmos de décadas de censuras em regimes autoritários e até democráticos.

A lembrar: peças do NELSON RODRIGUES foram censuradas até no período de ‘ouro” da cultura brasileira, entre 1945 e 1964, em que vingava na teoria uma democracia presidencialista, que combatera na II Guerra regimes fascistas.

O artigo 5º. garante a livre manifestação do pensamento:

IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

Muitos veem contradições nos 2 parágrafos. Com base no segundo que muitas obras, como o livro A ESTRELA SOLITÁRIA, foram embargadas e só depois de uma luta judicial liberadas.

Na interpretação da Justiça, seu autor, Ruy Castro, violou a honra do biografado, o ex-jogador GARRINCHA, ao afirmar que ele era alcoólatra, apesar de estar liberada a expressão artística.

Este mesmo argumento tem sido utilizado para se censurarem revistas, jornais e livros.

A censura em geral é burra, teimosa, quase sem sentido. Até ULISSES, de JOYCE, já foi censurado, como O VERMELHO E O NEGRO, de Stendhal, e HAMLET, de Shakespeare.

O MP provou sua estupidez e deu visibilidade ao recolher as cópias de A SERBIAN FILM.

Tal censura seria feita indiretamente pelo mercado. Pois o filme é ruim que dói e dificilmente um distribuidor ou exibidor se disporia a colocá-lo em cartaz. E mesmo se colocasse difícilmente o filme sobreviveria à primeira semana de exibição.

O filme lembra o que de pior havia no cinema brasileiro dos anos 1970: péssimos atores, fotografia mal feita, locações selecionadas nas coxas, apelo e sexo, muito sexo.

Conta a história de um ex-ator pornô aposentado, morando em Belgrado com a mulher e um filho, chamado para atuar novamente por uma quantia difícil de recusar. A própria mulher apoia a decisão.

Por contrato, não pode saber do que se trata. Os produtores parecem personagens caçados pelo Tribunal de Haia: servos ligados ao antigo regime, com cara de mau e guardas costas de sobra.

É parte do esquema que produz o que de pior tem na indústria pornô do LESTE EUROPEU, de onde vem infindáveis produções dos chamados snuff moveis [filmes que mostram cenas reais de estupros, mortes, decapitações].

Dopam o personagem com um coquetel de êxtase, a “droga do amor”, e Viagra, tornando-o um animal reprodutor sem controle. Sangue e porrada por toda parte. Cenas em que um saco de vômito só não basta. Filme para ser ver com Dramin.

Prova da total decadência do País fragmentado que já foi o paraíso anti-stalinista das esquerdas e polo de um grande cinema, como Emir Kusturica.

Nem quem gosta de porcarias, filme trash & underground, como eu, consegue chegar ao fim. Não sei como os promotores do MP carioca chegaram.

A liberação judicial deve ser comemorada.

Mas os amantes do antigo cinema iugoslavo lamentam