Fernanda Torres e a nossa estupidez

Fernanda Torres e a nossa estupidez

Marcelo Rubens Paiva

07 de novembro de 2016 | 16h11

ubaldo

 

Quando admitimos nossa estupidez.

Como é bom reconhecermos nossa ignorância.

Como é bom perguntar aquilo que o superego e a vaidade inibem.

Fernanda Torres resolver assumir sua estupidez para alguns assuntos e ir atrás de entender o que não compreendia.

Há oito anos, gravou o piloto da série Minha Estupidez, com seu vizinho João Ubaldo Ribeiro.

O programa estreia finalmente dia 14 de novembro no GNT.

Fernanda é uma espécie de representante da obra de Ubaldo, pois levava [leva] no teatro a irresistível obra que se tornou um monólogo, A Casa dos Budas Ditosos.

Mas mentia nas entrevistas ao afirmar que, sim, tinha lido Viva o Povo Brasileiro, o grande clássico do autor baiano.

A entrevista com Ubaldo é sensacional.

Ele conta que durante anos treinava no espelho uma risada simpática, até ele virar um “Ah-ha-hista”.

E ela, que acabou lendo o livro, destrincha a obra, com Evandro Mesquita atuando como o índio canibal, Caboco Capiroba, que come e analisa a carne de um holandês.

Cada entrevista é entremeada com uma obra de ficção, entrevista com o convidado e humor.

Nos próximos episódios:

O cientista Antônio Nobre visita O Inimigo do Povo, de Ibsen. E relembra a faculdade de agronomia, onde aprendeu a fabricar fertilizantes.

Com a antropóloga indigenista Manuela Carneiro da Cunha, que estudou com Lévi-Strauss, conhecemos o mito da origem do homem branco do povo Timbira, da tribo Kanela, do Maranhão, a escravidão indígena, o genocídio e o indianismo.

Fernanda aparece hilária como repórter na praia de Porto Seguro esperando as caravelas de Cabral. Evandro Mesquita faz um xamã.

O episódio da Ministra Carmen Lúcia é ilustrado pela cena do julgamento de O Mercador de Veneza, de Shakespeare.

Caetano Veloso conta com trechos de Panamérica, de José Agrippino.

Caetano lê trechos dos Tristes Trópicos, de Claude Levy Strauss, que Fernanda diz que mudou a sua vida: “Eu me valho da minha ignorância, da curiosidade onívora e de uma certa franqueza, que me leva a admitir, em público, que não sei o que é solipsismo, nem quem são Melpomene e Thalia, além de confessar que passei três anos mentindo que havia lido Viva o Povo Brasileiro.”

Melpomene e Thalia, explica Ubaldo, que apanhava do pai, para ler, são as musas da tragédia e comédia.

A série é dirigida por Mini Kerti e produzida pela Conspiração Filmes.

Ela nos faz querer ler mais, aprender, ir atrás das coisas, sem nos sentirmos totalmente ignorantes ou termos vergonha de perguntar.

Evandro está sensacional; revela como é bom ator.

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