Existe

Existe

Marcelo Rubens Paiva

30 de junho de 2009 | 12h22

Hoje tem novidade na minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO [todas as terças e quartas, às 21h, no ESPAÇO PARLAPATÕES]. É que mudei o texto. Como assim?! A peça estreou em fevereiro, você não pode fazer isso!

Posso, sim. Posso tudo. Sou o autor e diretor. E folgado. Eu quem mando. Eu inventei, eu desinvento. Enxuguei uma cena. Tivemos até um ensaio para marcá-la. Uma cena que derrubava o ritmo da peça. Que estava longa [quase 1h50].

Comédia é assim. No papel, dá 1h30 de peça. No palco, vai pra quase 2 horas. Porque o riso muda o timing da cena. Os atores, durante a temporada, sacam quando ele virá. Preparam a fala, como um piloto taxiando na pista de decolagem. Curtem dominar a platéia, jogar com ela. Capricham na piada. Apesar de eu instruir para focarem no texto, não no público. Aliás, maldosamente, enxuguei uma das cenas mais engraçadas da peça.

E A NOITE MAIS FRIA DO ANO, apesar de ser uma dolorida história de amor não completado, é comédia. Feita por 4 atores que conhecem o gênero, gostam de jogar com o público, caqueiam à vontade, dominam o palco com facilidade.

Sou assim, esquisito, ou impulsivo, mudo as minhas peças durante a temporada. Enxugo. Mudo falas. Sugiro cacos. Da minha peça E AÍ, COMEU?, mudei até o título; fora do Rio de Janeiro, ela é DA BOCA PRA FORA.

Na minha peça MAIS-QUE-IMPERFEITO, mudei o final meses depois da estreia- um personagem morria na temporada carioca e viajava na temporada paulista.

A peça NO RETROVISOR teve uma cena escrita num guardanapo de bar, no dia da estreia, depois de meses de ensaio. E na temporada ganhou cortes e uma cena introdutória que mudava toda sessão e era improvisada em cima de um eixo.

Falo disso nessa boa entrevista para o Guia da Folha: http://guia.folha.com.br:80/teatro/ult10053u577902.shtml

Bem, não sei se você sabe, mas todos os meus livros anteriores a MALU DE BICICLETA foram reeditados e reescritos, quer dizer, enxugados. Simples, a Editora Objetiva comprou meus livros editados por outras editoras, redigitalizou, me mandou os arquivos, e, metido, passei um ano enxugando e mexendo.

BLECAUTE, UA:BRARI, BALA NA AGULHA, AS FÊMEAS e NÃO ÉS TU, BRASIL publicados pela Objetiva são diferentes dos anteriores publicados pela Brasiliense, Siciliano e ARX.

Em BALA NA AGULHA, mudei um capítulo de incesto. Deixei mais sugerido. De NÃO ÉS TU, BRASIL, cortei mais de 40 páginas. Até FELIZ ANO VELHO cortei.

A pergunta não é “por que faço isso?”, mas “por que não?”, já que tenho domínio jurídico e estético sobre a minha obra. E, lembre-se, Euclides da Cunha mudou 3 vezes OS SERTÕES, incluindo, na última edição, a que ficou para a posteridade e ganhou o status de o maior livro da literatura brasileira, numa lista com especialistas elaborada pelo caderno MAIS, um mea-culpa que até mudava o sentido da obra.

Enquanto eu estiver vivo, meu caro, minha obra está viva.

*

Tem neguinho que reclama de tudo. Estou sem postar desde sexta. E apareceram alguns coments chiando. Eu, um novato na blogosfera, já tinha sido alertado sobre aqueles que reclamam quando não se posta. O que é, vão me denunciar no Procon?

O leitor de um blog se sente um consumidor. E faz exigências. Bom isso. É uma mídia relativamente nova, mas que cria alguns padrões. Um deles é a intimidade entre blogueiros e leitores.

Estive na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Passei uns dias lá. Falei no exuberante Teatro Pedro II. Reencontrei o grande poeta Thiago de Mello, que, apesar de morar a 400 km de Manaus, está por dentro de tudo, e acompanha o futebol, tema do nosso papo.

Ele contou que, na primeira contusão grave do Ronaldo, foi visitá-lo no hospital, em Paris, e disse, para um jogador no leito, desanimado: “Os pássaros da Amazônia dizem que você vai voltar e vai ganhar a Copa do Mundo.”

Dito e feito. Ronaldo vive contando essa história por aí. Nem conhecia o poeta, mas acreditou. Esqueci de perguntar ao Thiago o que os pássaros da Amazônia dizem sobre o jogo de amanhã.

Bebi o “fantástico”, chope só com espumas, do Pinguin. Revi amigos. Passei o domingo na praça. Até raspadinha com groselha bebi- há décadas que eu não bebia. Vi poetas locais recitarem. Palhaços mexerem com os pedestres. Sob o sol e o calor da Califórnia brasileira.

Fui sábado de manhã de carro, sozinho, com o Ipod no shuffle. Saí de São Paulo cedo. Estava frio e nublado. Peguei a Bandeirantes. Costumo ir devagar, de janela aberta, curtindo a vista.

Lá pelo quilômetro 80, começa a me dar uma palpitação. O sol surpreendentemente aparece. Naquela área, sempre está sol. Foi onde, há 30 anos, num dique, mergulhei e quebrei a quinta vértebra cervical, o que mudou radicalmente a minha vida.

O sítio em que mergulhei fica na beira da estrada. Toda a vez que passo por lá, dá um nó no meu cérebro. No ano passado, a caminho de uma palestra para a Universidade Federal de São Carlos, fundiu o motor do meu carro exatamente ao lado do maldito laguinho. Voltei guinchado.


PERDEU, PLAYBOY!

Aquele trecho do mundo é amaldiçoado. Estranhamente, um bairro surgiu ao redor e outro em frente. Mas o desgraçado do sítio está lá, intacto.

Coincidentemente, tocava There There [Radiohead], no som: “… just’cause you fell it, doesn’t mean is there” (só porque você sente, não quer dizer que exista).

Passo a viagem com pensamentos atropelados: e se não tivesse acontecido, onde eu estaria, o que estaria fazendo, como eu seria?

Então, me lembro de cada passo, cada pessoa que conheci, amei, penso nos amigos que eu não teria conhecido se não tivesse acontecido, nas viagens, na vida que arrumei para mim, e me acalmo pouco a pouco. Sentiria muita saudade de tudo isso, se não tivesse ocorrido. Não direi que bom que me aconteceu. Porque, estranhamente, apesar de tudo, encontrei felicidade no drama que vivi. Muita.


“Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Só uma coisa fica proibida: amar sem amor” [Thiago de Mello]

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