Essa censura que não acaba

Essa censura que não acaba

Marcelo Rubens Paiva

04 de junho de 2009 | 11h51

Desculpe a expressão, mas não consigo encontrar outra definição: censura é uma merda. A polêmica em torno dos livros didáticos recolhidos recentementes indica uma falha de caráter, de que não nos livramos.

Censurar implica que um grupo que tem o poder de escolha decide o que outros podem ler. Tal decisão subjetiva esboça que sabemos o que é melhor e pior, o que é certo e errado, seguindo nossa visão de mundo e crenças, sem nenhum dado científico. Afinal, há provas de que um palavrão na infância torna o indivíduo menos capacitado?

Aqueles que deliciaram na infância com os poucos palavrões de MEU PÉ DE LARANJA LIMA se tornaram seres com problemas? E os que leram FELIZ ANO VELHO na pré-adolescência, livro que narra as primeiras experiências sexuais e com maconha de um universitário, que abusa de gírias e expressões coloquiais, tiveram o futuro estragado?

Livros com palavrões para crianças podem ou não? Merda é palavrão? Coco pode? Soltar pum, xixi, meleca, caca? Bem, recolheram MANOEL DE BARROS, por conter o palavrão “boceta” em 1 poema. O poema é ruim? A palavra é gratuita?

A Secretaria da Educação de Santa Catarina recolheu o livro AVENTURAS PROVISÓRIAS, do premiado escritor Cristóvão Tezza, distribuído para o ensino médio da rede estadual, que possui um trecho considerado… “erótico”.

“A tua grande fraqueza -me disse Mara na cama, a primeira vez, quando eu broxei vergonhosamente mesmo depois de baixar a calcinha dela com os dentes e chupá-la como um pêssego maduro, na boca um gostinho de sal molhado- é que teu orgulho te castra”.

O livro também possui expressões como “porra”, “me fodendo a troco de bosta” e “caralho”. Realmente, Tezza não o escreveu para ser lido por crianças. Mas elas nunca ouviram ou leram isso? CENSUREM! Ou troquemos “foder” por “fazer amor”, “boceta” por “bo-bo-leta”, “perseguida”, “vagina”, “pau” por “pipi”, “pênis”, “varinha”?

Em SP, a Secretaria Estadual da Educação fez um pente-fino nas 818 obras escolhidas para o projeto Ler e Escrever. Recolheu 5, depois de se revelar que havia palavrões e piadas machistas num livro de HQ sobre futebol.

Outro recolhido, POESIA DO DIA – POETAS DE HOJE PARA LEITORES DE AGORA, tem a poesia com jogo de palavras como “nunca ame ninguém, estupre”. Mais três tinham o que classificam como inadequação etária: O TRISTE FIM DO MENINO OSTRA E OUTRAS HISTÓRIAS; “MEMÓRIAS INVENTADAS – A INFÂNCIA e MANUAL DE DESCULPAS ESFARRAPADAS: CASOS DE HUMOR.

Uma verdadeira caça às bruxas se instalou. Procuram-se culpados. Acusam profissionais de estarem aliados a essa ou aquela editora. É um mercado, o do livro didático, que envolve bilhões. O Estado é o maior comprador de livros e sustenta um negócio de pouca demanda. Houve já favorecimento, deve haver corrupção, há interesses envolvidos, grupos de comunicação, como GLOBO e ABRIL, participam de licitações.

No entanto, não se pode confundir licença poética com caixa 2.

A não ser que queiram censurar Machado de Assis, por denegrir a imagem de um deficiente em MEMÓRIAS PÓSTUMAS, já que o narrador desdenha a beleza de uma garota bela, mas “coxa”. Ou incentiva a violência ao afirmar no prefácio que daria um “piparote” na cabeça do leitor.

Kafka deve ser censurado, por não dar esperanças aos homens e duvidar da eficiência do sistema jurídico em O PROCESSO?

Dostoievski deve ser banido, por banalizar a violência e sugerir a impunidade em CRIME E CASTIGO?

Shakespeare, aquele inglês que só pensa em vingança e derramamento de sangue, abusa de diversas piadas com palavras chulas sobre o desempenho sexual de reis e rainhas, usa o sadismo e a escatologia (como marinheiro que defeca “trínculos”, em A TEMPESTADE), é outro que deve ser censurado?

E Mário de Andrade, vesgo e com fama de homossexual, que exalta o caráter preguiçoso do índio brasileiro?

Hemingway, aquele bêbado, não tem coração com os animais, ao exaltar as touradas.

Cervantes deve ser banido, pois louva as humilhações que um servo sofre e expõe as loucuras irresponsáveis de um cavaleiro que decide fazer justiça com as próprias lanças.

A mitologia grega deve ser banida, pela quantidade de casos de infidelidade, a maioria delas praticadas por Zeus, quem tem relações incestuosas e chega a ser pai do próprio neto (Dionisio).

Nelson Rodrigues deve ser rasgado do mapa. Queimem as obras de Henry Miller que poluem as bibliotecas escolares!

Talvez a própria BÍBLIA deva sofrer restrições, já que aponta, apesar da lição de moral, casos de abuso de poder, envolvimento com prostitutas e violência gratuita.

Quem garante que o melhor para uns é o melhor para todos? É, censura é uma merda. Não é o caso de puxar a descarga e se livrar dela de uma vez por todas?

Aliás, “merda” pode?

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