em férias

em férias

Marcelo Rubens Paiva

04 de setembro de 2011 | 22h48

 

 

 

Não me incomoda ler “de férias”, apesar do correto ser “em férias”, o que se aprende numa redação de jornal na primeira vez em que se tiram férias.

Estou no período das férias. Portando, estou em algo ou evento.

Mas estou de ressaca.

Estou de mau humor.

Reprimir estar “de” férias é parte de 1 rigor linguístico que atormenta a escrita e o bom senso.

Afinal, estar de férias é também estar num estado de espírito, como de ressaca ou de mau humor.

Tudo isso para dizer que, sim, estou de ressaca, não, não estou de mau humor e, sim, estou em e de férias.

Do ofício de colunista-blogueiro do ESTADÃO.

Volto só em outubro.

 

 

Mas não estou de férias do resto.

Trabalho com aquele gênero que resiste há milênios, o teatro.

Trampo pesado.

Como diretor da peça DEUS É UM DJ.

E como autor da peça C’EST LA VIE.

As duas estreiam na mesma semana de outubro no Rio de Janeiro.

Já estamos ensaiando.

Sem contar a pré-produção do filme E AÍ, COMEU?, baseado na minha peça E AÍ, COMEU?.

A filmar em Novembro.

Filme protagonizado por BRUNO MAZZEO, EMILIO ORCIOLLO e MARCOS PALMEIRA.

Direção FELIPE JOFFILY

Produção AUGUSTO CASÉ.

Tem a minha mão no roteiro.

 

cartaz da peça de 1999-2000

 

C’EST LA VIE é 1 projeto concebido por Ester Jablonski e o falecido recentemente Ítalo Rossi.

Um texto livremente inspirado nas histórias acolhidas pelo Disque Denúncia em sua rica trajetória de escuta dos dramas humanos.

Com prólogo surpreendente de BRÁULIO MANTOVANI.

Direção de GILBERTO GAWRONSKY e FERNANDO PHILBERT.

No elenco: ESTER JABLONSKI,  ADRIANO GARIB E ZÉ MANUEL PINERO.

Olga, professora primária, de francês [“Não se ensina mais francês nas escolas…”], aposentada, solitária, ocupa seus dias entre a TV e suas ligações para o DD. Com o pretexto de denunciar ameaças e perseguições, na verdade procura apenas um interlocutor para a sua solidão.

Homero, ele também professor, aposentado, de artes plásticas [“Também não se ensina mais artes nas escolas…”], solitário, é atraído pelo trabalho de atender as ligações, pela escuta das entrelinhas.

E comum, a paixão por DUCHAMP:

“Num mundo dominado pela lógica, eficácia, você não se encaixa. Como Duchamp, você quer reinventar a vida!”

Lúcio, o chefe, que com a experiência vivida, acumulada, aprendeu com a vida as respostas mais simples e objetivas para as mais cruas e tristes demandas [“Não vamos salvar a humanidade. Eles sempre vão ligar. Nós escutamos…”]

3 personagens, cada um no seu lugar, e o acaso faz a sua jogada.

De 08 de outubro a 18 de dezembro de 2011.

Patrocínio: Vale

Realização: Jablonsky Produções e Primeira Página Produções

Palhinha:

 

OLGA [ao telefone]

Entraram de novo na minha casa.

Oui, ontem!

Levaram tudo do meu armário.

Tudo!

Entraram na minha intimidade.

E depois roubaram tudo que eu tenho.

As ideias, os projetos, meu cérebro. Me esvaziaram.

Ontem!

Percebi quando acordei.

Limparam a minha cabeça.

Não sei como! Está vazia agora. Completamente.

Deixaram algumas memórias… poucas.

Oui. Algumas lembranças.

O problema é o futuro, levaram tudo, estou sem ideias, não sei o que fazer, fico parada, porque mexeram justamente lá, nos projetos, na agenda, são ladrões de ideias, devem guardar tudo num chip.

Quero elas de volta.

Minhas crenças? Levaram também. Todas.

Levaram até os déjà vu.

Olha, ficaram: minha intuição, algumas recordações bem antigas.

De alguns sonhos me lembro, especialmente dos esquisitos.

Não acredita em mim, não é mesmo? Então vem checar.

 

 

 

DEUS É UM DJ é uma peça alemã de Falk Richter, com tradução de Annette Ramershoven.

Dos anos 90, e que se revela atual.

Com montagens em vários países.

O casal ELE e ELA falam às vezes diretamente para a plateia, às vezes conversam entre si, às vezes para as câmeras.

Eles colocam trilhas sonoras para as suas conversas.

Contratados para “viverem” em frente às câmeras, estão sempre conscientes de que são observados, mas sabem lidar profissionalmente com esta situação; estão acostumados a câmeras, parecem autênticos em frente a elas. O espaço em que eles ficam é um tipo de instalação: um apê reconstruída dentro de uma galeria de arte, como se eles fossem objetos de arte vivos.

Antes do boom do reality show, Richter escreveu esta peça que retrata a queda do muro que separa o público do privado, marcas dos novos tempos.

As webcams transmitem qualquer movimento do casal diretamente para a internet. Como num show transmitido pela rede.

São eles que decidem quais imagens serão projetadas. No mais, eles têm uma câmera portátil, com a qual filmam a si mesmos. A vida é uma performance permanente.

Estreamos no OI FUTURO FLAMENGO, dia 6 de outubro.

Com MARIA RIBEIRO e MARCOS DAMIGO.

Patrocínio: OI FUTURO.

Palhinha:

 

ELA

Onde você esteve?

 

ELE

Não sei. Estava procurando alguma coisa.

 

ELA

Procurando alguma coisa. Sei.

 

ELE

Procurando alguma coisa.

 

ELA

Sei. E daí? Achou?

 

ELE

Não sei.

 

ELA

Não sabe. E o que ficou procurando três dias e três noites? Um recarregador para o seu celular, talvez? Não podia ter me ligado?

 

ELE

Não tinha o seu número comigo.

 

ELA

Ah, não tinha o meu número com você.

 

ELE

Não tinha nada comigo

 

ELA

Não tinha nada com você.

 

ELE

Eu estava totalmente só.

 

ELA

E não deu para lembrar o meu número ou coisa parecida?

 

ELE

Eu estava em outro lugar.

 

ELA

E você também não teve a idéia de procurar saber o meu número de alguma forma?

 

ELE

Não foi possível.

 

ELA

Ligar para alguém, para perguntar o meu número, porque nós vivemos juntos, acho, me parece, me parecia, acho, é, pode ser: “você e eu”? Não era possível? Não sei, mas era possível, ou não?

 

ELE

Não foi possível.

 

ELA

Não foi possível?

 

ELE

Eu estava longe, muito longe mesmo, longe, longe.

 

ELA

E não tinha telefones por lá?

 

ELE

Não.

 

ELA

Não tinha.

 

ELE

Não.

 

ELA

E o que tinha lá, onde você estava?

 

ELE

Não sei. Tudo era diferente.

 

ELA

Tinha extra-terrestres lá, que colocaram músicas diferentes?

 

ELE

Não.

 

ELA

Hum.

 

ELE

O quê?

 

(Pausa curta, ela controla o telão, faz um zoom de si na imagem)

 

ELA

Está contente?

 

ELE

Contente com o quê?

 

ELA

“Contente com o quê?”

 

ELE

Sim, contente com o quê?

 

ELA

Com a criança.

 

ELE

Não sei.

 

ELA

Ah, sei. OK, ainda temos tempo.

 

ELE

Quanto?

 

ELA

Duas semanas, acho, daí a gente resolve.

 

ELE

OK.

 

(ELE vai até a câmera, congela seu close-up, sua imagem continua por um tempo)

 

ELE

É isso, assim, para. Mandamos assim. Eles vão se virar com isso. Agora tenho fome de verdade.

 

Então, até a volta.

Saravá.

Bye.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: