Eletro-pau

Marcelo Rubens Paiva

22 de fevereiro de 2011 | 16h05

Entramos no segundo dia sem luz.

A comida começa a feder.

A água pode faltar, já que as bombas não conseguem levá-la às caixas.

O celular e os telefones sem-fio estão sem bateria.

Isolado, perdi o contato com o mundo.

Tudo começou com a explosão de um gerador.

Não estou no Oriente Médio nem em nenhum cenário de guerra.

Mas no Sumaré, a dez minutos da Avenida Paulista.

Deu pau na ELETROPAULO?

Sexta, minha mãe ficou sem luz durante 24 horas.

A pobre senhora dormiu na casa da filha.

Agora sou eu e meus vizinhos.

Estou sem luz há 26 horas, usando a sobra da bateria de um laptop, que estava no fundo da gaveta.

A mistura na geladeira começa a apodrecer.

Eu ontem estava todo pimposo, até de gravata, para ir ao concerto de Villa Lobos, em homenagem aos 90 anos da Folha. Sabe quantas vezes por ano uso gravata?!

Agora, estou trancado aqui lendo e esperando e tomando banho gelado. No escuro.

Ainda bem que ainda tem banho.

Lembro quando a luz acabava, e voltava depois de no máximo 4 horas.

Agora é pra mais de 1 dia.

Depois que a privatizaram ou terceirizaram a companhia, tratam a população com um cinismo doentio.

Porque você liga, e eles avisam que em duas horas a luz volta.

3 horas depois você liga, e eles dizem que o caminhão já está a caminho.

Isso foi ontem à noite.

Vai acabar a bateria…

Até agora, nada.

São 5 prédios de uma mesma quadra às escuras.

Help!

Bem, e adianta?

Se você tem algum chegado na Eletropaulo, peça para ele quebrar um galho.

Literalmente.

Pois foi 1 galho que deu o curto.

E se passar de helicóptero por aqui, jogue mantimentos.

Na esquina da Cayowaa com Paracuê.

Não é a primeira vez que acontece.

Olhe o que escrevi há exatamente 1 ano:

No escuro

Todos os paulistanos têm uma história para contar sobre a chuva da terça-feira, que desabou na cidade. A luz se apagou em vários bairros, perderam-se carros, casas e vidas, pessoas ficaram ilhadas…

Particularmente, acho lindo esses torós que humilham os simples mortais, provam o poder supremo da natureza- que manda, rege, de quem somos escravos e nos obriga a parar. Nos obrigam a esperar humildemente, rompem planos e rotinas, caotizam nossas vidas. Há um dedo de Deus em cada raio, terremoto, furacão, tempestade, erupção: o homem retorna à sua fragilidade, e todo conhecimento é inutilizado.

Meu amigo Gino, antropólogo de Harvard, que mora numa reserva florestal em Massachusetts, sai de casa exatamente quando neva ou chove. Abre os braços reverenciando os céus. Sorri ensopado. Bebe água da chuva. Rola na neve. É o seu maior momento de êxtase. Da gripe, ele cuida depois.

Vi da varanda que a chuva de terça era incomum. Na minha vista, o horizonte, o Pico do Jaraguá, a USP, as Marginais, os limites da cidade. Dessa vez, eu não enxergava meu nariz.

Às 16h, um estouro. E outro. Acabou a luz. Me preparei para uma noite no escuro. Procurei velas pela casa. Não tinha. Homem que mora sozinho se estrepa nessas horas: são as mulheres que adoram velas.

Consegui ler dois contos de Roberto Bolaño. Até escurecer completamente. Com a gata no colo, descobri que não tinha nada para fazer, a não ser olhar a janela, constatar que as ruas alagavam, o bairro tinha oásis ainda iluminados e o caos se instalava.

Não me restava fazer outra coisa a não ser pensar. Me lembrai dos dois meses em que passei numa UTI, sem poder me levantar, ler, me erguer da maca, olhando o teto e esperando a hora do rango. Tomar os medicamentos era a maior e única diversão. Tirarem a pressão era o programa imperdível.

Eu tinha que pensar, pensar, só pensar, lembrar, imaginar histórias, me contar piadas, rever imagens passadas, analisar sonhos e pensar. Até a próxima dose da morfina me trazer a paz que eu precisava. As UTIs deveriam instalar telas nos tetos, para as horas passarem. E abrir espaço para stand-up comedies.

Adquiri técnicas de como construir pensamentos. Me imaginava jogador de futebol, taxista, baixista de reggae, piloto de avião, surfista. Conseguia amar mulheres com quem nunca me deitei, reescrever o passado, imaginar “se eu tivesse feito diferente”. Tudo isso está na minha peça No Retrovisor. Nela, expus o que ser refém de um corpo que não obedece, de uma cérebro que ferve, de dores e solidão. Invejava os meus colegas em coma. Por pouco, não invejava os que morriam.

Aliás, a morte de um paciente era a maior atração daquele limbo. Chegavam médicos e enfermeiros, o burburinho destoava, tentavam ressuscitá-lo com choques, injeções e massagens. Eu não perdia um instante daquele show. Então, de repente, silêncio. Colocavam um biombo em trono do cadáver. Depois, apareciam os que preparavam o corpo para o velório. Ao redor, os pacientes da UTI, em suas macas, se olhavam com respeito e um pensamento: “Poderia ser eu.”

Então, eu voltava a pensar, bolar, lembrar. Dos amigos em casa, em torno de um violão, fumando, rindo, se amando. Da minha mãe diante do espelho se penteando. Do primeiro e emocionante beijo na primeira e na última namorada. Da timidez nos olhos. Da paixão nascendo, quando se encostam os lábios. Me lembrava de todos os beijos dados na vida.

Me lembrava da minha avó Cecy me colocando Roberto Carlos e me tirando para dançar, como uma doida numa boate. “Não vou sofrer porque não faz sentido, e viver por aí perdido chorando, sempre pela vida chorando…” (Roberto, em Uma Palavra Amiga)

Às 18h, escureceu completamente. Sem livros, TV, internet, música. Durante três anos na Unicamp, vivi com amigos em casas sem TV ou telefone. Não tínhamos carro, um luxo naquela época. Nada de DVD, internet. Nada de celulares, e-mails, Messenger. E a vida corria como se a eletricidade não interessasse.

Não sei como conseguíamos marcar encontros, combinar festas. Havia os telefones públicos. Havia telegramas e cartas. Assim, combinávamos os encontros com a namorada de outra cidade, o primo, o amigo distante. “Eu passo a vida recordando, de tudo quanto aí deixei…” (Roberto, em Meu Cachoeiro)

Às 20h, no vazio do escuro, meus olhos, como os da gata, se acostumaram com a luz da cidade. As buzinas do trânsito infernal nos davam paz: pelo menos, não somos vítimas diretas do caos e estamos secos.

Me lembrei de amigos. Peguei o telefone fixo, a agenda antiga e telefonei para os do passado. Agradeci a cada um pelo que fez por mim. Ri de apelidos, histórias e fofocas. Marcamos reencontros. Confessamos saudades.

“Não tenho mais nenhuma razão, pra continuar vivendo assim, não posso mais olhar tanta tristeza, por isso não vou mais ficar aqui, o mundo que eu queria não é esse, o mundo é só de sonhos…” (Roberto, em O Astronauta)

Às 22h, voltou a luz. O bairro gritou, comemorou. Desliguei os interruptores. Fiquei ainda alguns instantes com o meu escuro, admirado. Mas passou.

Chequei os e-mails, as notícias. E não pensei duas vezes. Deixei a gata miando sozinha.

Peguei a chave do carro, desci o elevador rezando para não pifar, entrei no carro e fui beber um uísque no bar com os amigos de sempre. E me esqueci dos encontros marcados com os antigos.

Até a próxima tempestade me trazer lembranças. Saudades, eu? Para que ser herói na própria solidão e refém do passado? Veio a bonança.

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