dizem que ela existe pra ajudar

dizem que ela existe pra ajudar

Marcelo Rubens Paiva

03 de maio de 2012 | 19h03

O único erro no roteiro do filmaço TROPA DE ELITE 1: quando o aspirante André Mathias  vai a uma festinha com seus amigos universitários da PUC, “os maconheiros”, como generaliza o Capitão Nascimento, dança com Maria, a mais gatinha da classe [Fernanda Machado], e um invejoso pede para o DJ colocar “Polícia” dos TITÃS.

A pista urra, e o neo gambé se chateia.

Além de polícia, era negro. Os playbas não iam deixar barato.

 

 

A cena é engraçada. Mas na real os tiras gostam desta música. Se divertem.

Conheço alguns.

Como jornalista e boêmio, cruzei com muitos deles por aí. Da PF, Civil, PM, delegados.

Polícia, jornalista, puta, trafica e rapaziada da classe teatral vão todos beber no mesmo bar, bater o mesmo rango e dançar nas mesmas boates desde que Gutemberg revolucionou o mundo e inventou a prensa em 1449.

Pode haver sintonia ética entre as profissões. Mas não quero ofender meus colegas.

O lance é que largamos o batente no mesmo insano horário do começar da madrugada; jornais fecham às 23h; peças de teatro encerram neste horário; e os criminosos agem muito neste horário.

Me dou bem com alguns PMs. Especialmente se não estou fazendo nada errado.

Tem de tudo: leitores, amantes de teatro, bebuns, fãs de rock. Poucos lembram os brutamontes que reprimem manifestações sociais. Sem gozação, até parecem seres humanos normais.

Mas, basta se juntarem, ou uma ocorrência ocorrer…

Entendi no meu aniversário a lógica da PM.

Enquanto comemorava com amigos num boteco da VILA MADALENA, vimos 1 PM entrar armado e tirar um sujeito de dentro do bar.

Logo encostaram duas viaturas. Não era um assaltante. Apenas um maconheiro que engolira seu baseado na abordagem do outro lado da calçada.

Fui até eles, pensando em se tratar de 1 amigo. Nunca vi o “meliante” na vida. Mas fiquei indignado com o raciocínio kafkiano que se seguia e com o poder de uma “otoridade” sobre 1 cidadão.

Eram 4 PMs. Apenas um dele estava nervoso e queria enquadrar o réu.

Com os outros 3, havia diálogo, estavam calmos, falaram seus nomes, papeamos e entendiam o exagero da ação, numa cidade em que acabou de se anunciar o aumento e muito de casos de homicídio, roubo, num bairro que é vítima de arrastões.

A 50 metros dali, um restaurante japonês, TANUKI, sofreu arrastão. A cem metros, um prédio idem. Nossas amigas temem ir a pé até o metrô.

O que duas viaturas faziam ali, enquanto a cidade tem medo?

 

eu negociando com a pm

 

Fumar maconha ainda é crime. Mas se assina um termo na delega, cumpre-se, e quando, uma pena alternativa. Tem até ex-presidente pedindo a sua descriminalização. Logo logo o Congresso aprova. O Supremo julga.

É notório e quase uma unanimidade que reprimir o usuário é perda de tempo. Como disse a revista The Economist, A GUERRA FOI PERDIDA.

Estávamos todos chegando a um acordo, o PM mais nervoso parecia ter sofrido uma lavagem cerebral, repetia códigos, artigos e condutas como numa prova oral da Academia de Polícia, e nem conseguia visualizar o ridículo da ação.

Seu olhar estava em transe. Tinha ódio do réu que engolira a prova. Tinha uma ideia fixa, queria prendê-lo, e a alternativa era a acusação de desacato à autoridade.

A namorada histérica do sujeito quase estragou tudo. Pois quando ela se exaltava, eles se uniam.

Corporativismo realçado.

Outros amigos vieram me acudir. Finalmente acalmamos o PM furioso, e partiram para o verdadeiro combate ao crime.

Lembrou-me a estúpida ação na USP no final do ano passado.

Soube também que na Praça do Pôr do Sol, pracinha ponto de encontro de jovens da ZO desde quando sou adolescente, no entardecer, a PM aparece para prender maconheiros. Vão com faróis desligados, como se estivessem à caça de perigosos marginais.

Será que estão atrás de extorsão, já que citei bairros de classe média alta, ou é uma política da Secretaria de Segurança de repressão total contra jovens maconheiros?

Ambas as hipóteses são provas da falência da Segurança Pública no Estado.

Está faltando foco. E comando.

Sei que o leitorado mais conservador dirá, nem precisa se dar ao trabalho. Conhecemos a sua opinião.

Mas a pergunta é: a PM não tem mais o que fazer? Outras prioridades?

É a minha opinião.

Afinal, dizem que ela existe pra ajudar e defender…

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.