divórcio

divórcio

Marcelo Rubens Paiva

16 de março de 2010 | 12h11

divorce

 

Os três pediram café; um curto, um carioca e um descafeinado. Rodrigo, homem de poucas e sábias palavras, manteve-se calado a maior parte, enquanto os outos dois…

“Quem é o seu melhor amigo?”, Marcos perguntou.

“Você?”

“Quem livra a tua cara de situações embaraçosas, te resgata à meia-noite quando o carro pifa, dorme com você em hospitais, paga a tua fiança, se for necessário, vira o teu fiador, teu guarda-costas, teu pára-raio.”

“Você, você, você.”

“Me conhece, quem é o teu amigo mais fiel?”, insistia Marcos.

“Você.”

“O mais contraditório?”

“Você”

“O mais doido, insatisfeito, incoerente?”

“Você”

“E o mais sedutor?”

“Você. Disparado.”

Chega o café e a conta. Marcos oferece pagar. E narra: “Não sou sedutor ortodoxo convicto, nem tenho o dogma como ideal de vida. Passei a praticar depois que a ex me largou. É um comportamento dúbio: querer me vingar, sair com o maior número de mulheres, e ao mesmo tempo sofrer de escassez amorosa. Nasceram rancores, depois de eu ter sido largado por duas mulheres que eu amo. Amava. Aquelas… Agora, procuro em cada mulher um novo atalho, que me tire desse estado.”

“Que estado?”

“De carência induzida. Procuro uma mulher que me faça esquecer. Como não encontro, testo, e me comparam a um galinha. Só existe uma pessoa que pode me salvar.”

“Quem?”

“A tua mulher.”

“A Lúcia? O que tem a Lúcia?”

“Tudo.”

“Tudo o quê?”

“Tenho pensado nela. Eu queria ter algo com ela.”

“Com a Lúcia?!”

“Você é meu amigo, não fique ofendido.”

“Ter o quê?”

“Uma relação.”

“De amor?”

“Sexual. Eu queria ter um caso com a tua mulher.”

Olharam o garçom passar o cartão e retirar o boleto. Olharam a fumaça do café. Como se nela, um futuro possível.

“Eu queria ir pra cama com…”

“Tá, tá, não precisa repetir. E será a única pessoa que pode te tirar do estado de carência?”

“Ah, você concorda com ele”, disse então Rodrigo.

“Cala a boca! Estou chocado.”

“Comigo?”, perguntou Marcos.

“Com a Lúcia. Não imaginava que ela tinha este poder.”

“De despertar desejos? De cura? Não me leve a mal.”

Ele olhou para Rodrigo, que bebericava o seu carioca.

“O que foi?”, perguntou Rodrigo.

“Você ouviu o que ouvi?”

“Lógico.”

“E você não vai falar nada?”

“O que eu posso fazer?”

“Me ajude a esganá-lo!”

“Mas é o seu melhor amigo. Se não rolar sinceridade entre amigos, não é amizade. E, ora, a Lúcia é um mulherão. Dos três, você é o mais sortudo”, disse Rodrigo.

Era o pacto. Dos três, ele era o único casado. E vivia desdenhando a mulher, Lúcia. Reclamava do seu temperamento, seus temperos, suas tendências, suas crenças. Os amigos Marcos e Rodrigo chegaram antes e combinaram. Porque são os seus melhores amigos. Resolveram provocar e demonstrar interesse em Lúcia, para que o amigo parasse de invejar aquela vida de solitários desquitados quarentões amargurados que, acredita, é mais inspiradora do que a sua de casado.

Rodrigo retomou: “Lúcia sempre foi a melhor e é ainda a mulher mais deslumbrante da cidade. Você não sabe o que ela provoca com aquele sorriso? Ela é interessada em tudo, conversa, faz perguntas, fala de assuntos sem o menor constrangimento, tem humor, uns dentes lindos, sabe se vestir com discrição, sabe como andar, os olhos mel que, quando bate sol, ficam verdes, fora aqueles braços com pelinhos loiros, ela é maluquinha…”

“Tá, tá, tá!”

“É uma coisa, mesmo!”, concluiu Marcos.

“Não fala assim!

“Melhores amigos falam tudo.”

Ele se levantou tonto. Nunca imaginara que Marcos comunicasse uma declaração com proposta tão indecente.

“Nem por um milhão de dólares!”, ele disse e saiu fora.

Os amigos enfim riram da provocação:

“Também, não é a Dennie Moore”.

“Nem você o Robert Redford”.

Ele dirigiu a noite toda pela cidade. O celular tocava, ele via, era Lúcia, não atendia. Guiou por todas as ruas da infância e adolescência. Depois, cruzou viadutos com nomes de militares. Passou por floriculturas e joalherias. Até voltar tarde para casa. Bem tarde. De mãos vazias. Entrou na ponta dos pés, como se um ladrão invadisse uma casa desconhecida.

Lúcia dormia. Que lindo. Olhou para a mulher. Encanto. Ela é deslumbrante mesmo. Lembrou-se das afinidades. Tomou um banho sorrindo. Uma coisa. E se enfiou na cama sem acordá-la. Então, ao invés de abraçá-la com toda a força, virou-se para o lado e começou a tremer de medo. Pânico. Uma mulher daquela, ele não conseguirá segurar, logo o primeiro que usar as palavras certas a levará, os amigos, o chefe, o professor de meditação, um garçom do Ritz, do Spot, do Habib’s, um cineasta pernambucano, o Rodrigo Santoro, o Tato Malzoni, o Quincy Jones! Eu sou um nada e me casei com a mulher mais charmosa, atraente e discreta da cidade, e nem reparava mais em tanto brilho no olhar, nem nos pelinhos loiros, nem no humor, nos dentes, ela se tornara comum, Lúcia, a patroa, a rotina, o estorvo, o entrave de uma vida sexual variada e dinâmica, e não a divindade que inspira poesia em todos os cantos.

Ele se levantou da cama. Olhou para os lados. O pânico se tornou incontrolável, terror. Suava. Falta de ar. Você não a ama mais. E ela o largará logo, porque é muita areia para o seu caminhãozinho. Sem acordá-la, abriu as gavetas e começou a fazer as malas. Deixarei o caminho livre, musa! Quando escutou a voz meiga de Lúcia.

“Môr? Que tá fazendo?”

“Desculpe. É inevitável. Não adianta me impedir. Cedo ou tarde…”