Uma família no Golpe de 64

Uma família no Golpe de 64

Marcelo Rubens Paiva

09 de abril de 2014 | 11h15

Ditadura começou hoje há 50 anos 

São 9 dias que mudaram o Brasil

O Golpe Militar fez 50 anos em 31 de março, segunda-feira passada.

No dia 1 de abril de 1964, as tropas se movimentam até o Rio.

No dia 2, o Congresso declarou a presidência vaga, e Jango fugiu para o Uruguai.

Mas é hoje, dia 9 de abril, que faz 50 anos que a ditadura militar começou de fato e lei.

Pois há 50 anos a Junta Militar instaurou o AI [Ato Institucional] e cassou o governo anterior e a oposição.

Em seguida, o general Castelo Branco foi empossado, iniciando um ciclo que durou 21 anos. Não devolveram o Poder aos civis, nem marcaram eleições, como combinado.

Meu pai era deputado federal quando estourou o Golpe. Estava em Brasília. Estava em sexto lugar na lista dos 102 cassados pelo AI-1.

João Goulart era o primeiro. Depois, Jânio Quadros, Luiz Carlos Prestes, Miguel Arraes, Leonel Brizola. Celso Furtado, o décimo.

Na capa do Estadão de 10 de abril, a manchete: “Entra em vigor o Ato Institucional”.

Toda a capa do jornal é dedicada ao tema. No texto abaixo, o título: “Terá vigência até janeiro de 1966”. O governo que dizia ter apoio popular e que um dispositivo militar organizado para resistir ruiu por inteiro; general Argemiro Assis Brasil, chefe da Casa Militar, foi quem armou o suposto dispositivo militar para repelir o Golpe.

Aos 85 anos, Almino Affonso, que acaba de lançar a biografia 1964: Na Visão do Ministro do Trabalho de João Goulart, contou para o Valor: “Os comunistas não tinham como chegar ao poder. Por eleições, nem falar; por luta armada, nem falar; muito menos em aliança com Jango. A que título um proprietário de terras faria aliança que levasse ao comunismo?”

Sobre o fato de Jango abandonar o poder: “Não se pode chamar de covarde a quem, tendo um canivete, não reage ao ataque de alguém armado com metralhadora”.

Meu pai e Almino se asilam na embaixada da Iugoslávia, recém-inaugurada.

Ele dizia com ironia que a escolheram porque tinha piscina e era novinha em folha.

A embaixada estava vazia.

Um ano antes, o marechal Tito, a terceira via [liderava um país comunista mas sem fechar a fronteira com o Ocidente e se alinhar totalmente com a URSS], esteve em Brasília e agradou os militares de ambos os lados.

Os novos asilados achavam que não sofreriam retaliação.

Nas primeiras noites, dormiram no chão, depois, arrumaram camas de vento e se cotizaram para comida e sabonetes.

As famílias chegaram.

Lembra Almino: “No início, estavam lá os deputados Bocayuva [Cunha] e Lício Hauer, do Rio, Fernando Santana, da Bahia, e José Aparecido de Oliveira, da bossa nova da UDN mineira. Rubens Paiva, outro amigo-irmão, chegou mais tarde. Viajaram para Belgrado num navio cargueiro. Rubens Paiva conseguiu ir logo para Paris e, com a mulher, Eunice, foi de carro buscar Almino dois meses depois.”

Aqui estão eles, com a vista de uma Brasília ainda descampada.

 

 

Reconheço ainda na foto o assessor de imprensa de Jango, Raul Ryff.

Ficaram meses na embaixada. Meu pai emagreceu [aqui com minha avó Paiva estirada na poltrona].

 

 

E nossa família em Brasília, com direito a passeios turísticos.

Podíamos entrar em sair pelos portões da embaixada livremente.

 

 

Passei meu aniversário de 5 anos, em maio, dentro dela, em que fizeram uma festinha animada.

Aqui, eu ao lado dos irmãos Affonso, Rui e Gláucia.

 

 

 

 

Meses depois o governo militar deu o salvo-conduto, e puderam todos sair.

Sem os passaportes brasileiros, que não foram entregues.

Viraram todos cidadãos iugoslavos, com direito a passaporte, com o que viajaram por todo exílio.

 

 

 

 

Meu pai voltou de surpresa ao Brasil no mesmo ano.

Nos mudamos para o Rio, reencontrar Ryff, Waldir Pires e Bocayuva

Almino, só na Anistia.

Aqui um encontro de exilados e cassado no exílio [Chile ou Uruguai]

 

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