Diretas Já no sapato da Globo

Diretas Já no sapato da Globo

Marcelo Rubens Paiva

22 de abril de 2015 | 21h46

 

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Diretas Já no sapato da Globo

O movimento Diretas Já, de mais de 30 anos atrás, maior mobilização popular que o Brasil testemunhou e que pedia a eleição direta para presidência da República, ou, nas entrelinhas, o fim da ditadura, ainda atormenta a Globo.

Na verdade, não o movimento, mas a omissão e teimosia da emissora em não divulgá-lo, temendo perder privilégios conquistados durante o regime militar.

A demora deu no grito de guerra que ecoa até hoje: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

Ontem, a empresa, na voz de William Bonner, que por sinal militou nas Diretas Já, como a maioria dos seus jornalistas, relembrou o comício de 25 de janeiro de 1984, noticiado pela Globo como se fosse apenas uma concentração para comemorar o aniversário de São Paulo, uma festa, esvaziando o sentido do ato, despolitizando-o:

“Essa reportagem provocou muita polêmica ao longo de muitos anos porque, embora ela falasse do comício das Diretas, o texto que introduzia a reportagem, lido pelo apresentador na época, não falava em comício pelas Diretas”.

E reproduziram o texto lido pelo apresentador do Jornal Nacional da época: “Um dia de festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé”.

“Isso aí foi visto durante muitos anos como uma tentativa da Globo de esconder as Diretas e, obviamente, depois de muitos anos também, foi reconhecido como um erro”, confessou Bonner.

Todo jornalista, colunista e editorialista que já escreveu sobre o ridículo episódio recebeu resposta de algum chefe da Central de Jornalismo da emissora exigindo a correção. Num texto-carta padrão, dizia que, ao contrário, a Globo fora a primeira a se manifestar a favor das Diretas.

Um erro que custa ser digerido e causa uma eterna desconfiança na isenção jornalística da maior empresa de comunicações do país. Ou na falta de.

Creio que pararemos de receber o pedido de correção.

ps> É bom lembrar que, quando os comícios começaram a ser frequentados por milhões, a Globo cobriu o movimento.

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