Direita volver

Direita volver

Marcelo Rubens Paiva

22 de janeiro de 2010 | 00h55

O ex-coronel Erasmo Dias, que morreu há duas semanas, não teve velório de um herói, nem foi homenageado por populares. Apenas alguns membros da família, que reclamaram da falta de reconhecimento.

Se ele dizia que cumpria ordens, quem as comandou não apareceu.
Anticomunista convicto, desempenhou o papel de salvar os valores da família e propriedade, que seriam “tolhidos” por aqueles terroristas jovens cabeludos e maconheiros, manipulados pela Internacional Comunista.

Era a sinopse da sua vida. Ajudou a implantar uma ditadura sanguinária que se mantinha não pelo debate, mas pelo terror, e declarava que era contra a tortura.

Em 1968, descarregou o revólver ao redor do ex-líder estudantil e amigo Luiz Travassos, preso no congresso clandestino da UNE em Ibiúna. Em 1969, no Vale do Ribeira, jogava numa cova os guerrilheiros da VPR presos e descarregava a automática ao redor.

Perguntei-o uma vez se isso não era tortura. Teimoso, dizia que não.

O coronel tinha um mérito; se “mérito” é a palavra apropriada. Era dos poucos do regime que defendiam seus métodos e a forma equivocada e desproporcional da luta, como invadir uma universidade católica, a PUC, já durante a Abertura.

Tirou estudantes e professores das salas para colocá-los sentados no estacionamento em frente e reprimir a reunião que ocorria no TUCA, para a reconstrução da UNE. Gritava no estacionamento: “Onde está a Veroca! Eu quero a Veroca!”


VEROCA NO CONGRESSO DA UNE [SALVADOR, 1979]

Veroca é minha irmã mais velha. Líder estudantil, era a alma do movimento que retomou a luta pelas liberdades democráticas e anistia no final dos anos 70- que representou a estaca que romperia com as artérias do regime miliar e o afastamento definitivo de parte da sociedade civil que o apoiava e financiava.

Num encontro clandestino de estudantes também reprimido, Erasmo encontrou na triagem minhas irmãs e estudantes da USP, Eliana e Nalu, e as levou.

Aqui o relato da Nalu, que hoje mora em Paris, na troca de e-mails familiar em que anunciei a morte do ex-coronel.

“Nesse dia ele prendeu mais de cem estudantes que estavam na Paulista de Medicina. Liberou, depois de ter fichado todo mundo. Menos dois: Eliana e eu.”

“Fomos interrogadas com revólver na cabeça em salas separadas, e diziam: ‘Onde está sua irmã Veroca? A Eliana já falou tudo e foi liberada, e se você não falar, vai acabar como o seu pai.’ Era mentira, pois Eliana não tinha falado nada, mas fiquei apavorada, eu sabia onde ela estava e não falei.”

“Fomos liberadas graças à intervenção do governador Paulo Egídio. Nunca vou esquecer da cara lívida da mamãe, que veio nos buscar.”

Anos depois, o ex-coronel se beneficiou da democracia pela qual lutávamos e se elegeu deputado.

Entrevistei várias vezes como repórter. Foi minha fonte em matérias em que eu investigava, com Cláudio Tognolli, a presença da CIA no Brasil durante a ditadura.

Me abriu os arquivos e deu horas de depoimento para o meu livro Não És Tu, Brasil (1996), sobre a Guerrilha do Vale do Ribeira; ele comandou a fracassada repressão.

Eu via nele um combatente confuso, como um histérico diante dos seus erros. Suas convicções eram facilmente derrubadas. Ele sabia que participara de uma missão insana. Como profissional, eu respeitava o repertório da minha fonte. Como democrata, desprezava.

Em 1999, Serginho Groisman teve a ideia genial de juntar Veroca e o ex-coronel num programa de TV. E sempre me lembra que foi um dos mais marcantes que fez.

Veroca perguntou ao vivo: “Como o senhor se sentiu depois de ter sido eleito, usufruindo de nossas conquistas democráticas? Porque nos massacrou por isso, entrou na PUC jogando bombas em mulheres grávidas, com cavalos em sala de aula, gritando o meu nome enlouquecido.”

“Tinham meninas que estavam com meias de seda e nem participavam da manifestação. Viraram tochas humanas, nunca mais puderam andar de saia ou maiô, meses de hospital para curar as queimaduras.”

Ela lembra: “No estacionamento estavam alunos e professores aterrorizados pela violência. Meus colegas que me encontraram no dia seguinte explodiram em choro de alívio, achavam que eu estava morta.”

Sob vaias da plateia, Erasmo respondeu: “Eu era autoridade! Tinha que fazer valer o princípio de autoridade, não importa se eram meninas comunistas ou baratas, o que fosse, tinha que reprimir.”

“Eu disse depois que achava que ele era gente, por isso tinha defendido o direito a liberdade democrática. Inclusive a dele, de ter suas posições políticas defendidas num parlamento”,

Veroca conclui. “Morreu achando que gente que pensa diferente é barata. Perdeu completamente a compostura quando fiz a pergunta. Minha impressão é que ele estava querendo passar para a história de outra maneira. Tinha levado um recorte de jornal que falava de Rubens Paiva. Não chegou a mostrar, eu vi na mão dele.”

Erasmo Dias era assumido. No Brasil, a direita costuma pensar de um jeito, mas dedetiza o discurso. Na Europa, a direita é declaradamente racista. É bom, porque o eleitor lá sabe quem é quem. Já aqui..

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Na edição de Réveillon de telejornal da Band, depois de mostrar imagens de lixeiros desejando felicidades, Boris Casoy, sem saber que o áudio estava aberto, mandou: “Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho.”

O vídeo caiu na internet. Simboliza o discurso reprimido de parte da sociedade brasileira, que cria elevadores de serviço e social em condomínios, mas avisa que é ilegal discriminar.
A mesma que se deslumbra pelo Réveillon dos VIPS de Trancoso ou coberturas de Copacabana e ignora os milhões de cidadãos nas areias e avenidas.

No País em que garçom não come a mesma comida que o cliente, nem na mesma mesa, Boris disse num lapso (e se desculpou apenas depois da repercussão) o que está no inconsciente da nossa formação.

País do futuro com esse passado e presente? Se liga!

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Saiu a lista de livros da Fuvest. Nem GUIMARÃES, nenhum MODERNISTA. Literatura estrangeira então… Quem é a anta que decide isso?

•Auto da barca do inferno – Gil Vicente;

•Memórias de um sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida;

•Iracema – José de Alencar;

•Dom Casmurro – Machado de Assis;

•O Cortiço – Aluísio Azevedo;

•A cidade e as serras – Eça de Queirós;

•Vidas secas – Graciliano Ramos;

•Capitães da areia – Jorge Amado;

•Antologia poética (com base na 2ª ed. aumentada) – Vinícius de Moraes.

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