Diploma?

Marcelo Rubens Paiva

23 de junho de 2009 | 13h29

Sim, que seja eliminada a obrigatoriedade do diploma para jornalistas [e radialistas também]. O mercado tem condições de dar as ferramentas que um profissional precisa: ética, princípios, bom senso, precisão no texto.

A técnica e o termos se aprendem e uma semana de estágio: lide, pauta, chapéu, orelha, abre de página etc. A vivência é que cria um bom jornalista. Suas fontes aparecem com o tempo. O ambiente de uma redação ensina mais do que muitas faculdades. E escrever bem não se aprende na escola.

Há grandes jornalistas médicos, engenheiros, advogados, poetas, observadores, contadores de histórias.

Concordo com o amigo Maurício Stycer, que já trabalhou em muitas publicações [JB, Folha] e postou no seu blog no dia 18 de junho.

Dou aulas de jornalismo, de forma não contínua, desde 1994. Já passei por cinco faculdades diferentes. Ao longo do tempo, adquiri algumas certezas e muitas dúvidas sobre a necessidade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão de jornalista.

Tento a seguir ordenar alguns argumentos e questões sobre o fato.

1. O que é preciso saber e aprender para ser jornalista? É uma questão polêmica. Há alguns consensos: é preciso ter cultura geral e domínio total da língua portuguesa. Conhecer história é fundamental. Matemática e estatística são conhecimentos necessários. Ética. Direito. É preciso ter o hábito de ler jornais e revistas, ter gosto pela informação. Ter espírito crítico, ser capaz de compreender a realidade em que vive, é outro atributo obrigatório.

2. Onde adquirir os conhecimentos citados no tópico anterior? Começa em casa, prossegue na escola básica, depois na secundária e, finalmente, na faculdade. Qual faculdade?

3. Você não precisa cursar uma faculdade de jornalismo para aprender nada disso.

4. Quais são os conhecimentos específicos necessários para ser jornalista? Entramos aqui no terreno da técnica. Não são muitos. Desafio alguém a defender a necessidade de mais do que dois anos de estudos para adquirir conhecimentos específicos da profissão, tais como técnicas de entrevista ou técnicas de redação voltadas para diferentes mídias.

5. Pessoalmente, acredito que um ano, com uma oferta de cursos bem articulada, cumpra bem esta função de transmitir conhecimentos específicos da profissão. Mas admito pensarmos até em dois anos. Mais que isso é embromação.

6. Discordo do meu amigo Leandro Fortes, para quem o diploma de jornalismo defende “milhões de brasileiros informados por esquemas regionais de imprensa, aí incluídos jornais, rádios, emissoras de TV e sites de muitas das capitais brasileiras, cujo único controle de qualidade nas redações era exercido pela necessidade do diploma e a vigilância nem sempre eficiente, mas necessária, dos sindicatos sobre o cumprimento desse requisito”. Na minha opinião, não é o diploma que defende o público dos manipuladores de notícias, mas a concorrência. Sem concorrência, como é o caso em grande parte do país, a imprensa de má qualidade prospera – e continuará a prosperar – com ou sem diploma para jornalista.

7. Meu amigo Ricardo Kotscho preocupa-se com outra questão importante. Tudo bem, acabou a obrigatoriedade do diploma. Mas, e agora? Concordo que não podemos, de fato, ficar numa espécie de terra de ninguém, sem algum tipo de regulamentação.

8. Defendo, para início de discussão, que a prática só seja permitida a pessoas com formação universitária (em qualquer área, inclusive jornalismo), mais um curso de especialização técnico.

Assino embaixo.

*

Em 2006, escrevi um texto para o CADERNO 2, sobre o meu diploma pendurado no lavabo de casa, que polemizou e virou depois matéria da Revista Imprensa.

Mandaram até um fotógrafo aqui para fotografá-lo no banheiro. Não me controlei e posto aqui. Ciente de que alguns programas citados nem existem mais.


Diploma no lavabo

Fiz uma provocação aqui em casa. Amigos e convidados apoiam. Coloquei meu diploma da USP no banheiro. O assinado pelo reitor da época, Flávio de Moraes, e pelo diretor da Escola de Comunicação e Artes, em papel-manteiga entre dois vidros, com o brasão da universidade em dourado, provando (comunicando?) que sou bacharel em comunicação social. Está pendurado em cima da privada. Um protesto. Ou melhor, uma intervenção, exprimindo o desgosto com a profissão.

Sou formado em rádio e TV. Teoricamente, treinado para produzir, dirigir, editar, apresentar, apurar, reportar programas de rádio e televisão. Trabalhei pra Gazeta, Rede TV!, Band e Globo. Na TV Cultura, apresentei dois programas. Conheci de leve o fazer TV. E a deixei, convicto: um peixe na areia pulando em vão.

Nunca apoiei a obrigação de diploma para jornalistas ou radialistas, exigência fisiológica herdada de movimentos sindicais pelegos do regime militar (ironia). Não são profissões que colocam pessoas em risco. Não? Depois dos acontecimentos em 15 de maio [dia em que o PCC parou a cidade], do pânico alimentado pelas rádios e TVs, do sensacionalismo evocando o medo, passei a duvidar da ética de meus colegas e da consciência de sua responsabilidade.

O Brasil da TV e a TV do Brasil são histéricos. Os locutores esportivos não narram, urram. As notícias quase sempre são apresentadas aos gritos, como jograis infantis, repare. Depois, programas de malucos com gostosas, ou de gostosas com platéias em transe, alimentam bizarrices. Quando não há culto, descarrego ou venda de jóias e tapetes.

É um stress assistir à TV brasileira. A bolsa não cai, despenca. Clichês se repetem: “A gente sai de casa e não sabe se volta vivo, sô!” Ditadores são chamados de facínoras. Crimes, de massacres. Culpam as autoridades, omitindo que, num Estado democrático, nós somos as autoridades.

É fácil, para a reportagem local, o discurso genérico do caos. O inimigo é o Bin-Laden, o Beira-Mar, o Marcola. A TV Brasil trata o seu público como atrofiado. Somos? Ora, a luz do Masp foi cortada. Somos. Lembro um clássico dos anos 80, Psicopata (Capital Inicial): “Esta vida me maltrata, estou virando um psicopata, quero soltar bombas no Congresso, fumo Hollywood para o meu sucesso, sempre assisto à Rede Globo com uma arma na mão, se aparece o Francisco Cuoco adeus televisão.”

Imaginávamos que a TV paga iria nos salvar. Quantos jornalistas comandam programas? Na maioria, o triedro atriz-manequim-modelo. No programa Tribos, Dani Suzuki. “Você vai poder ficar por dentro das manias e curiosidades das tribos urbanas, sempre com a presença de uma pessoa que entenda do assunto, para traduzir as tendências”, afirma o site do canal. A apresentadora não entende nem é capaz de traduzir? Ora, então por que não contratam logo uma pessoa que entende do assunto?

E quem mais estreou no Multishow? Jorge de Sá, da família Sandra de Sá. Seu programa, Mandou Bem. “Jorge de Sá vai aos eventos que estão agitando a cidade e dá dicas com as melhores opções para os jovens se divertirem no final de semana: shows, estréias de cinema, teatro e muito mais”, informa o site, que traz o perfil de Jorge. Melhor filme: Batman Begins e 25th Hour. Qual a sua tribo? “Das boas vibes…” Balada preferida? “Onde todos estiverem com disposição”. Experiências de vida inesquecíveis? Morar nos Estados Unidos. Ator preferido: Tony Ramos. Cantor ou cantora preferida: Sandra de Sá. Ah, vá… Suas manias? Andar fazendo dribles e cestas de basquete. Sonha em ser… “Bem sucedido na vida em todos os sentidos”. Frase, ditado, lema: “Pra que o medo se o futuro é a morte?” Mandou bem…

O cara que tem Batman Begins como um marco me indicará as melhores opções para eu me divertir no fim de semana de boas vibes, claro. Se meu diploma cair do prego, encontrará seus pares.

*

“Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito” [Fernando Pessoa]

Não sei você. Acho Fernando Pessoa o maior poeta da nossa língua-mãe. Por anos, gostar e Pessoa era censurável. A vangurda o considerava relativamente piegas e “fácil”. Eu, hein?

O espetáculo português com textos dele, TURISMO INFINITO, do Teatro Nacional São João de Porto, ficará de 19 a 28 DE JUNHO no SESC PINHEIROS [Teatro Paulo Autran].

Em Julho de 2000, o Teatro Nacional São João trouxe o espetáculo Madame -a partir de uma ideia da Fernanda Montenegro, com Eva Wilma no elenco. Também fez parceria com Arrigo Barnabé em 2008, no projeto músico-cênico Caixa de Música.

E, sim, eles montaram FELIZ ANO VELHO em Portugal, nos anos 80, e ajudaram a levar a minha peça NO RETROVISOR para o festival de Porto em 2004. A ligação deles com o Brasil vem de longe.

O diretor Ricardo Pais, que dirigirá a Fernandona num próximo espetáculo, propõe uma leitura da vida e obra de Fernando Pessoa a partir de vários textos- coloca os heterônimos conversando entre si, o visionário Álvaro de Campos, o guarda-livros Bernardo Soares, o “Fernando Pessoa”, o bucólico Alberto Caeiro e também Ofélia – a única mulher que o envolveu amorosamente. O espetáculo é dividido em três blocos e um epílogo.

Além disso, hoje, terça-feira, às 19h, haverá uma MASTER CLASS com Ricardo Pais no palco do Teatro Paulo Autran [50 vagas]. Retirada de ingressos pelo sistema INGRESSOSESC [é grátis].

SESC Pinheiros é na Rua Paes Leme, 195. Bora?

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