dilemas de 1 escritor

dilemas de 1 escritor

Marcelo Rubens Paiva

06 de dezembro de 2011 | 13h21

 

 

O escritor ucraniano Mikhail Bulgákov era um dissidente dentro da própria União Soviética.

Morava em Moscou e vivia cercado por outros intelectuais censurados, críticos do regime.

Por ser considerado contrarrevolucionário, não conseguia montar a maioria das suas peças ou publicar quase nada.

Pedia para se exilar, mas era proibido pelo próprio Stalin, fã de uma das suas únicas peças exibidas, o drama Dni Turbinykh (Os Dias dos Turbins). O ditador a viu 15 vezes. Mais tarde, o empregou num pequeno teatro de Moscou e como roteirista do Teatro de Bolshoi,em que Bulgákov não conseguiu emplacar nada.

Em 1938, o escritor recebeu a visita da polícia secreta, NKVD, e um pedido inusitado: Stalin confiou a ele a missão de escrever uma peça sobre a juventude do ditador, para celebrar seu sexagésimo aniversário.

Naqueles dias, os pedidos de Stalin não podiam ser recusados.

Assim começa a peça Collaborators, que estreou há um mês em Londres, de John Hodge, roteirista parceiro de Danny Boyle (Trainspotting, A Praia), sobre a estranha relação entre o dramaturgo e o ditador.

Ambos passam a se encontrar periodicamente.

Stalin aparece frágil, sempre carregando muitas pastas e com urgência para tomar decisões.

Dele, depende a vida de milhões e o desenho geopolítico de um mundo às vésperas de mais uma guerra.

Aos poucos, eles trocam de papel. Stalin passa a escrever a peça sobre ele mesmo, e Bulgákov analisa documentos, despacha ordens e toma decisões. Pergunta se deve assinar tais despachos.

“Se eu posso, qualquer um pode”, ironiza Stalin

 

 

O autor ganha privilégios que deixam os amigos desconfiados, como água quente, café, bananas, um carro com motorista, luxos da época, e se vê curioso para entender os mecanismos do regime que critica, enquanto Stalin romantiza a sua vocação pré-revolucionária, seus atos de coragem, sua juventude heroica, num texto bobo e tendencioso.

Num dado momento, Bulgákov, na posição de burocrata, se vê diante do pedido estatal para confiscar grãos de trigo de pequenos fazendeiros, que reclamam que são fundamentais para o plantio da próxima safra.

Stalin diz:

“Você decide. Este é um dos nossos dilemas. Alimentar amanhã milhões de camponeses ou deixá-los passar fome até a colheita dos fazendeiros no ano que vem?”

Stalin sabe muito bem que, desde os Césares, os humores de um povo dependem do nível de trigo dos silos oficiais. Bulgákov não só assina o confisco como defende o polêmico ato diante dos seus amigos dissidentes, reproduzindo literalmente o mesmo argumento de Stalin.

Trata-se do controverso episódio conhecido como “Holodomor”, a Fome Soviética, que levou a morte de6 a8 milhões de pessoas nos anos 30.

Alguns afirmam que o confisco foi provocado deliberadamente por Stalin, para forçar a coletivização das áreas agrícolas. Uma estupidez macroeconômica.

O número de vítimas da fome entrou na lista de vítimas do stalinismo. Incluindo os que morreram nos Gulags, trabalhos forçados, penas de morte e na grande deportação, ou “Transferência Populacional”, mais de 20 milhões morreram dos erros e comandos de Stalin.

A peça é inspirada em fatos históricos, com a licença poética que a dramaturgia exige. A macabra e surreal relação vai da comédia ao drama. Até o autor interferir com uma fala de Stalin:

“Matar meus inimigos é fácil. O desafio é mudar o jeito que eles pensam, controlar as mentes deles. E eu acho que controlei a sua muito bem. Nos anos que virão, poderei dizer: ‘Bulgákov? Sim, nós também o treinamos. Ele desistiu. Viu a luz. Se nós o doutrinamos, podemos doutrinar qualquer um.’ É o homem contra o monstro. E o monstro sempre vence.”

Stalin transformou um país que arava a terra com tração animal numa potência nuclear. Sem ele e sua teimosia, obstinação em mandar para o sacrifício seus conterrâneos, e não entregar Leningrado e Stalingrado, cercadas pelos nazistas, o resultado da guerra poderia ser outro.

No entanto, seu estilo é comparado ao de Hitler. E seu nome encabeça a lista dos maiores genocidas da História. O monstro não venceu.

Vê-se a construção da sua paranoia, que está no DNA de todo ditador. Ele acredita que há conspirações em toda parte. Isola-se com medo dos traidores. Elimina possíveis concorrentes, como Trotsky, e, o mais inacreditável, Zhukov, o genial marechal que comandou a tomada de Berlim, herói de guerra que foi enviado ao ostracismo.

 

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A peça pode ser vista também como uma alegoria dos compromissos e humilhações que afligem os artistas perante o poder. Muitos são seduzidos a largar seus ideais em favor das políticas de mercado.

1. Dramaturgos que “se vendem” para a teledramaturgia ou para o gosto comum.

2. Escritores que viram marionetes de diretores de marketing para obter incentivos para suas obras.

3. Romancistas que cortam páginas de livros para não aumentarem os custos de editores.

4. Intelectuais que contratam relações públicas para “estar na mídia”.

Personagem tão comum no cenário cultural brasileiro, organizado por um estatuto e controle que tem, opa, não me escapa o adjetivo, inspiração stalinista.

 

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Bulgákov morreu cego em 1940. Agora, é comparado a Maiakovski como um dos pilares da renovação da literatura russa de Gogol.

Seu livro mais famoso, O Mestre e Margarida (Alfaguara Brasil), que levou mais de doze anos para escrever, só foi publicado pela primeira vez em russo em 1966, depois da sua morte.

Narra a chegada do diabo na Moscou comunista dos anos 1930, numa tarde de primavera. Satanás e seu séquito decidem visitar a cidade e encontram poetas, editores e pessoas comuns tentando se virar sob as amarras da burocracia comunista.

O apartamento do autor em Moscou, onde passa parte da trama, virou local de culto. Foi transformado no Museu Bulgákov no final da década passada.

Moral da história? O homem venceu. Nele, com suas fraquezas, acreditamos. E esperamos que todo artista possa, antes de um banho quente, ou depois das bananas, ter tempo para criar o que interessa.

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