Dicas para um casamento duradouro

Dicas para um casamento duradouro

Marcelo Rubens Paiva

16 de dezembro de 2009 | 12h05

Poucos ficam indiferentes quando, numa cerimônia religiosa, o padre pergunta: “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando até que a morte os separe?”

Os homens se entreolham. Será que consegue? As mulheres torcem. As céticas abaixam a cabeça. Parentes das duas famílias miram o altar, encaram o novo membro, esperam a resposta, zelando pelo seu.

Já houve caso de pessoas que tiveram ataque de risos diante do padre. No entanto, não se sabe se algum noivo pediu: “Defina ser fiel.”

E se a noiva respondeu: “Cala a boca, seu canalha, você sabe muito bem do que ele está falando.”

Ou se houve a réplica: “Tudo bem. Ser fiel na alegria e na tristeza. E no tédio, o que fazer?”

Há muito se discute se é possível manter um casamento seguindo os preceitos [ou a utopia] da fidelidade. Homens e mulheres se dizem incapazes de seguir o sermão à risca. Cada parte encontra justificativas darwinistas.

Dizem eles: a seleção natural contesta a fidelidade, já que o macho precisa espalhar seu sêmen pelo maior número de fêmeas, para garantir na reprodução a sobrevivência da espécie.

Dizem elas: a fêmea fica de moita, observa o comportamento dos machos e escolhe aquele mais forte, para aprimorar o gene do grupo, e se aparece outro mais forte, viril e galã da novela, ela teria que mudar de parceiro.

Bem, você está cansado de ouvir este papo furado. Mas foi no começo da revolução sexual que se começou a elaborar os princípios do casamento aberto. Aquele em que não é preciso pular a cerca, basta atravessá-la calmamente, já que está escancarada.

A ideia foi amadurecendo, muitas verdades do casamento passaram a ser questionadas e novas fórmulas, apresentadas, como as casas de swing e o ménage à trois.

Aponte uma mulher que não ouviu do marido, após o ato: “Não me leve a mal, eu te amo, você é linda, mas… E se você chamar uma amiguinha para nos assistir? Nem vou encostar nela. Juro. Só para apimentar a nossa relação…”

O casal de filósofos franceses, Sarte e Simone de Beauvoir, é reconhecido como o primeiro a propagar que não havia trancas nem fechaduras nem batentes no seu matrimônio.

Bem, alguns acreditam que Simone- que apareceu gata graças ao Photoshop na polêmica capa da revista Observateur- descobriu só depois do porre e do sim que Sarte não era exatamente um modelo de exuberância física, além de caolho, e teria proposto a novidade.

Outros afirmam que eles precisavam de estímulos externos, já que o sexo entre dois existencialistas nunca se completa.

Um costuma parar no meio do ato e perguntar: “Mas se a essência vem antes da existência, nós não existimos, e nada faz sentido?” E ficam aterrorizados pela dúvida até um deles pegar no sono.

Imagine que um casal consiga, enfim, chegar a um consenso e estabelece uma rotina madura em um saudável e bem resolvido casamento aberto. O diálogo entre eles causaria estranheza para quem vê de fora. Mas não para eles:

“Gato, vou jantar com o Mário. Sem piadinhas.”
“De novo?”
“Não. Será a primeira vez.”
“Na semana passada, você jantou com Mário, até dormiu com ele.”
“Aquele foi o Rômulo.”
“Que Rômulo, eu conheço?”
“Você ficou com a mulher dele no nosso Réveillon da Costa do Sauipe.”
“Belas costas… Antes ou depois da meia-noite?”
“Antes. Depois você ficou comigo.”
“É mesmo… Que farra. Rasguei o seu vestido a dentadas.”
“Não, deve ter sido com a mulher do Rômulo.”
“Tem certeza?”
“Eu já estava pelada, não se lembra?”
“Por quê?”
“Porque vi os fogos no mar com o Arnaldo.”
“Arnaldo?”
“Cuja mulher você papou no Carnaval de Porto de Galinhas.”
“Galinha… Claro, como era o nome dela?”
“Você acha que eu devo ir pra cama hoje?”
“Com quem?”
“Com o Mário. Sem piadas. É nosso primeiro encontro. Se eu ficar com ele já no primeiro encontro, ele pode me achar uma vadia. Tem homem que gosta de charminho.”
“Se ele te chamar de vadia, eu processo ele.”
“Fico ou não fico?”
“Fica logo. A vida é uma só.”
“Estou gata?”
“Está linda.”
“Ele vai me achar atraente?”
“Se não achar, liga para o Rômulo.”
“Mas a calcinha está marcando?”
“Está uma delícia.”
“Com lenço ou sem?”
“Sem.
“Com sutiã ou sem?”
“Sem.”
“Com batom ou sem?”
“Amor…”
“Que foi?”
“Sei lá, está me dando uma coisa agora…”
“Ciúmes?! Ah, gato, nem vem! A gente combinou.”
“Não isso, não. É que você está tão linda sem batom, sutiã, lenço, com a calcinha marcando, que…”
“Que…?”
“Que me deu uma vontade de… Nada não. Vai jantar com o Mário. Melhor dar logo. Tem também os caras que detestam mulheres enroladas.”
“Tem certeza? Se quiser…”
“Precisamos disso para manter a chama do nosso casamento.”
“Te amo tanto…”
“Olha, você já estava esquecendo a camisinha.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.