Desconstrução

Desconstrução

Marcelo Rubens Paiva

03 de abril de 2009 | 12h43

Nós artistas somos esquisitos.

Lá pelos anos 80, decretamos que vivíamos enfim na era pós-moderna. Vendemos livos teóricos explicando o que era isso e o que o diferenciava do modernismo. Pesquisamos e debatemos. Selecionamos aquilo ou aquele que era ou não era pós-moderno.

Fui atrás do sentido. O pós-modernismo veio casado com o hiper-realismo, em que a expressão da imagem e a digitalização passou a ser mais realista que a realidade, a hiper-realidade, fruto das novas tecnologias.

A idéia nasceu nos anos 50, quando se percebeu que, na era do consumo, a imagem (o simulacro) era mais sedutora do que o real.

Nessa nova era, perdíamos o referencial. Um exemplo grosseiro: com uma máquina de escrever, sabíamos que apertar uma tecla originava um movimento mecânico em que uma alça pressionava uma fita com tinta, que imprimia uma letra no papel; com um computador, não tínhamos idéia de como se fazia a trasição entre o gesto mecânico e a letra.

O mundo se tornaria confuso. Nossos cérebro deveria aprender a conviver com o desconhecido, que faria parte da rotina. No livro O QUE É PÓS-MODERNO, da Brasiliense, se ensinava que entrávamos na era do “de”: desreferencial, desabilitar, desconstrução…

Ontem fui ver MOSCOU, de Eduardo Coutinho, o papa do documentário no Brasil, em cartaz no É TUDO VERDADE (festival de documentários em SP, Rio e Brasília, cujo o ingresso, vale acrescentar, é gratuito!!!).

O filme conta a história da peça AS TRÊS IRMÃS, de Tchekhov, através dos ensaios de um grupo, O Galpão, com um diretor convidado, Kike Dias. Misturam trechos do texto com desabafos dos atores. Os exercícios propostos pelo diretor do grupo, os workshops, entram como uma forma de se contar a história das três irmãs russas que recebem a visita de soldados estacionados em sua vila.

É um filme desconstruindo uma peça em desconstrução; peça que ficou em cartaz, no repertório da Cia dos Atores. Tudo se mistura. O figurino é a roupa do ator. O cenário, uma sala de ensaio, os camarins, um palco nu. Rompem-se todas as regras narrativas. No entanto, está lá, a trama de Tchekhov, acompanhamos as paixões das meninas e seus conflitos.

Descobre-se como levamos para o palco, mesmo ao encenar um texto de 1900, nossas experiências pessoais em fragmentos. É uma aula de cinema, teatro e desconstrução.

Imagine se a moda pega:

1. A indústria automobilística passa a vender carros desconstruídos, cujo banco é uma poltrona velha, rasgada, a buzina, uma música infantil, a água do limpador é colorida, e se entra pelo portamalas.

2. Lançam um celular a corda, com rodinhas. Ou em forma de boneca, que o usuário deve vestir, trocar a fralda. Ao girá-lo, ele diz: “Eu te amo, mamãe”.

3. Um teclado com alavancas. Ao pressionarmos as teclas, elas se erguem e imprimem a letra na tela plasma. O ruído de uma máquina sai pelos altofalantes.

4. Uma impressora multifuncional no formato de uma prensa do século 16.

E por aí, vai…

Falando em consumo, recebi agora. Não resisti:

DESABAFO DA TRANCHESI:

“Caríssimos. E bota caro nisso, essa Operação Narciso me deixou aloPrada! Alguém me deFendi. Não sou dessa Alaia. Não é Versace o que Diesel por aí. Sou pessoa Dolce & Bacanna. Pucci que Paris!!! Estão me pegando para Christian, meu Dior. Preciso de um Cacharel em direito, um cara Valentino para dar um jeito nessa Bottega, antes que coloquem no meu Rabanne. Eu não vou botar o Galliano dentro não. Chloé? Vou continuar minha Missioni. Miu Miu, abraços para vocês!”

Abraços só na visita íntima. Bem, ela já foi liberada…