descanse na vergonha

descanse na vergonha

Marcelo Rubens Paiva

17 de abril de 2013 | 10h49

 

 

 

Rest in peace? Não. Rest in shame.

Descanse envergonhada. Na vergonha!

É o que diz a faixa de um manifestante no funeral da controversa Margaret Thatcher.

Raramente se viu uma liderança de tamanha expressão receber protestos no seu velório.

Quantos ditadores ou líderes polêmicos tiveram protestos semelhantes? Os ingleses dão uma lição de democracia. Estão juntos quem a apoiava e quem a detestava. O povo está nas ruas.

A União sindical se recusou a participar. Sul-africanos se lembram de que ela chamou uma vez Mandela de terrorista. Os argentinos a odeiam e não mandaram representantes.

Muitos viraram as costas para o cortejo fúnebre da ex-premiê, que rola em Londres. Correspondentes do Estadão relatam que que alguns vaiaram a passagem do caixão pelo centro no caminho de Westminster até a Catedral de St Paul.

Um homem levantou um cartaz pedindo as vaias, e manifestantes gritaram “escória”.

Britânicos ficaram furiosos com o gasto estimado de 10 milhões de libras (15 milhões de dólares) para o funeral, que está sendo pago pelo contribuinte: caixão carregado nos ombros de oito militares, subiu na quarta-feira a escadaria da principal catedral de Londres para uma cerimônia fúnebre com a presença da rainha Elizabeth 2ª e estrangeiros.

Thatcher governou a Grã-Bretanha entre 1979 e 1990, morreu em 8 de abril, vítima de um derrame, aos 87 anos. Seu maior legado: a consolidação do neoliberalismo, o enfraquecimento dos movimentos sociais, do IRA, a vitória da Guerra das Malvinas, o desmantelamento da Cortina de Ferro e o fomento ao movimento pós-punk.

Metade das músicas que dancei em danceterias dos anos 1980 fora composta em protesto contra ela.

O caixão acaba de fazer o trajeto numa carruagem militar, coberto pela bandeira britânica. Um canhão fez disparos a cada minuto na Torre de Londres, e o sino do Big Ben se calou. Uma banda militar tocou Beethoven, Mendelssohn e Chopin. Evitou The Clash, The Cure, Joy Division, U2.

Thatcher ganhou 3 eleições. Foi controversa e popular. Fez medidas que muitos não ousariam. Tratou seus inimigos a ferro e fogo. Tirou direitos trabalhistas consolidados.

Foi a pá de cal de uma esquerda utópica, que buscava uma terceira via antileninista.

Foi o prego no peito de MAIO DE 68.

Não descansará.

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O THE GUARDIAN fez a comparação:

http://www.guardian.co.uk/news/datablog/2013/apr/16/margaret-thatcher-funeral-10-million

Com 10 milhões de Libras, o custo do funeral, pagariam:

Salário de um ano de 322 enfermeiras

Salário de um ano de 272 professores de escola secundária

Salário de um ano de 320 bombeiros

Salário de um ano de 269 paramédicos

Contas de gás de e eletricidade de 7 mil casas

Contas de água de um ano de 25 mil residências

Dava para construir 44 bibliotecas

Comprar 16 milhões de garrafas de leite; duas garrafas para cada londrino

 

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Olha como o primeiro-ministro britânico, David Cameron, vai para o trabalho.

E nem sequer deram um lugar para ele se sentar.

 

 

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Tem amigo meu aprontando [no bom sentido]:

 

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