Depois da Dilma Bolada é a vez do Temer Poeta

Depois da Dilma Bolada é a vez do Temer Poeta

Marcelo Rubens Paiva

19 de maio de 2016 | 20h17

F2WEhOLx

 

Sai @dilmabr (Dilma Bolada), afastada pelo Senado, entra um rococó @temerpoeta (Michel Temer Poeta).

Tudo de mentirinha e na gozação.

Enquanto os políticos originais disputam a Presidência, seus personagens fakes disputam as atenções no Twitter.

O novo @temerpoeta é inspirado no desejo declarado do verdadeiro Michel Temer, presidente interino, ser um poeta imortal.

Os íntimos sabem que Temer, que estreou na poesia em janeiro de 2013 com o livro de 168 páginas, Anônima Intimidade, deseja entrar para a ABL [Academia Brasileira de Letras].

No final deste post, poemas do verdadeiro Temer, que os fez em guardanapos de papel durante voos entre Brasília e São Paulo.

Surpreendentemente, tem neles homenagens à figura feminina.

O falso Michael Termer Poeta, ?@temerpoeta, posta poesias de 140 caracteres há dias, relatando os dilemas do seu fictício cotidiano na Presidência.

É uma brincadeira do poeta sem livro publicado Daniel Ramos, um funcionário público de Brasília.

Dilma Bolada, cujo lema agora é “eterna presidenta”, continua com 561 mil seguidores.

Temer Poeta, lema “minh’alma se apetece”, estreia bem. Começou no dia 13 de maio, um dia depois do verdadeiro tomar posse. Já angariou mais de 17 mil seguidores no Twitter.

Aqui vão alguns:

 

golpe golpe golpe

palavra tão vulgar

galope galope galope

vá pra roça trabalhar

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você não me quis para amigo

meu peito murchou, um balão

ontem fui decorativo

hoje, ruim de coração

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invejo os imortais da academia

ah, paulo coelho!

ó, sarney e marinho!

queria ser eterno em poesia

eu peço todo dia ao tinhosinho

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sus para quê, eu vos pergunto

quem é que gosta de hospital?

comam feijão, trabalhem muito

e poupem mais pr’o funeral

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nenhum direito é absoluto

absolutas são as flores

as florestas, os manguezais

e o sorriso inexorável

dele mesmo, satanás

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adoro falar safadezas

nos ouvidos de meu bem

sussurro baixinho: senado,

congresso, pp e dem

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crise? que crise? não vi

são chuvas de estação

a crise que tenho é por ti

ó, meu lindo cramunhão!

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amo ver o michelzinho

rolando contente na grama,

escolhendo um logotipo

colorindo um pentagrama

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ó, mundinho feminino

fazei-te representar

na cozinha, no banheiro

limpando uma sala de estar

 

não há mistério na cultura

não há mistério na mulher

mistério nem ministério

assim que o tinhoso quer

dizem que sou satanista

mas satanista não sou

satã não se ganha, conquista

quero ser merecedor

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lava-jato não conheço

lava-jato não vi

padilha, renan e aécio,

viram algo por aí?

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moça, não fica bem

cair de beber no bar

na sexta também convém

beleza, recato e lar

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temer

não é poder

quando é verbo

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o firmamento sorri

eu sei que alguém me ama

mesmo qu’inda seja

efeitos de um pentagrama

 

POEMAS DO VERDADEIRO [E ROMÂNTICO] MICHEL TEMER

 

QUEM?

 

Loira. Os olhos

Negros.

O cabelo, na raiz,

Negro.

Os lábios

Grossos.

O olhar (não os olhos)

Distante. Triste.

Romanceado. Vendo a África.

Sem a rapidez

E alegria

Dos olhos da loira

Postos na neve.

A quem minha memória

Deve armazenar?

A loira, falsa,

Ou a mulata, verdadeira?

 

EMBARQUE

 

Embarquei na tua nau

Sem rumo. Eu e tu.

Tu, porque não sabias

Para onde querias ir.

Eu, porque já tomei muitos rumos

Sem chegar a lugar nenhum.

 

ANÔNIMA INTIMIDADE

 

Correio elegante.

Hoje, torpedo.

Bom mesmo era o correio elegante

Nas quermesses do interior.

O garçom levava a sua mensagem para alguém.

Ou trazia,

Sempre anônimas,

Palavras de amor.

Ou admiração.

Despertava curiosidade.

Quem mandou?

E a sua mente divagava.

Sonhava.

Fantasiava.

Desejava.

Será ela?

Outra?

Era uma intimidade aquele anonimato.

Depois, você caminhava para sua casa, para seu quarto.

E dormia inebriado pelas palavras e pelo perfume

Que o correio elegante trazia.

 

VERMELHO

 

De vermelho

Flamejante.

Labaredas de fogo.

Olhos brilhantes

Que sorriem

Com lábios rubros.

Incêndios

Tomam contam de mim.

Minha mente

Minha alma.

Tudo meu

Em brasas.

Meu corpo

Incendiado

Consumido

Dissolvido.

Finalmente

Restam cinzas

Que espalho na cama

Para dormir.