democracia neles!

democracia neles!

Marcelo Rubens Paiva

11 de fevereiro de 2014 | 16h45

 

O movimento Black Bloc é antidemocrático.

Não respeita a opinião discordante, impede a livre movimentação de manifestantes e o livre exercício da imprensa, depreda o patrimônio público e ataca as instituições.

O melhor remédio contra o Black Bloc é a própria democracia

Não precisamos de jornalistas enfurecidos, latindo nos jornais ou telejornais, incitando a violência contra ele.

Nem de Cidade Alerta nem de congêneres.

Nem de outros jornalistas vingando a morte absurda do colega.

Se é antidemocrático, que os instrumentos que a garantem enquadrem o que é ilegal.

Não é preciso temê-los.

Não ameaçam o Estado de Direito.

É preciso enquadrá-los: democracia neles!

E se ela não for suficiente, nos resta aprimorá-la.

 

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Domingo, fez 50 anos que morreu Ary Barroso.

E escrevi em sua homenagem: RIP o “ary-barroquismo” da nossa gente.

Por onde anda o brasileiro inzoneiro, sorridente e feliz?

“Esse coqueiro que dá coco”? Custa os olhos da cara. “Onde amarro minha rede”? Cuidado com o arrastão, que não é de peixe. “Nas noites claras de luar”? Checou se o alarme está ligado? “Por essas fontes murmurantes onde mato a minha sede”? Racione, pois os reservatórios se encontram abaixo do nível.

Levantamento recente da Rede de Soluções Para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, que avaliou 156 países, indica que o Brasil ocupa a 24ª posição quando o assunto é felicidade da população.

Para a consultoria IMS Health, numa pesquisa encomendada em 2012, o Clonazepam aparece como o oitavo medicamento mais vendido nas farmácias do País; perde para o Neosoro, ícone da descongestão nasal, Ciclo 21 e Microvlar, anticoncepcional campeão absoluto na temporada de 2008, mas desbanca gigantes da automedicação, como Dorflex, Tylenol, Engov, melhor amigo de um boêmio, e o lendário e proustiano Hipoglós, que tem cheirinho de mamãe.

Do Laboratório Roche, o tranquilizante vem em forma de comprimidos e gotas, é indicado isoladamente ou como adjuvante no tratamento das crises epilépticas.

Ansiolítico, ajuda no tratamento de transtornos de ansiedade, distúrbio do pânico com ou sem agorafobia, transtornos de humor e afetivo bipolar, tratamento de mania e depressão maior, como adjuvante de antidepressivos na fase inicial.

Ainda segundo a bula, é empregado em síndromes psicóticas, tratamento da síndrome das pernas inquietas, da vertigem e sintomas relacionados à perturbação do equilíbrio, náuseas, vômitos, quedas, zumbidos, hipersensibilidade a sons (hiperacusia e hipoacusia), plenitude aural, tratamento da síndrome da boca ardente, e não deve ser usado por pacientes com histórico de sensibilidade aos benzodiazepínicos, insuficiência respiratória ou hepática grave.

Como causa depressão no Sistema Nervoso Central, não é recomendável realizar ocupações perigosas que requerem agilidade mental, operar máquinas ou dirigir veículos, nem o uso concomitante com álcool ou outras drogas.

Clonazepam é o princípio ativo do Rivotril, o tarja-preta mais pop e idolatrado, tranquilizante do grupo dos benzodiazepínicos.

Barato, vendido desde 1960, pode causar dependência.

Por que o brasileiro está precisando dele?

Não viramos todos epiléticos. Andam em falta plenitude aural e astral.

Adquirimos:

1. Agorafobia (fobia social), especialmente os que dependem de transporte público para ir e vir e ainda costumam cruzar com Black Blocs pelo caminho, negociando a passagem com a PM ou entrando numa agência para fazer operações em caixas eletrônicos.

2. Insônia, para se calcular o prejuízo que tomamos de serviços precários, impostos em cascata e desorganização do Estado.

3. Transtorno de humor, se ficamos parados num congestionamento, num avião que não sai do chão ou numa estrada interrompida por passarelas desabadas.

4. Zumbido, cercados por buzinas, obras irregulares, pancadões e vizinhos que tretam o tempo todo e não tomam Rivotril, Lexotan, Frontal, Maracugina, água com açúcar, nem chá de camomila.

5. Enjoos e náuseas, quando vemos pelos telejornais máfias do serviço público se esbaldarem com nossos impostos e a tática da polícia contra manifestações populares.

O brasileiro está inquieto e furioso. Odeia.

Muitos odeiam.

Muitos se odeiam no trânsito.

Muitos odeiam políticos.

Todos odeiam operadoras de celular e TV a cabo, companhias aéreas, servidores públicos, bancos, filas nos bancos, ladrões de bancos, lucros dos bancos, e tem os que odeiam e vandalizam bicicletas patrocinadas por bancos.

O ódio é disseminado por redes sociais, o paraíso de antissociais.

Mas acredito que as pessoas odeiam odiar. Restará às autoridades uma saída: despejar, com o flúor, gotas de Rivotril nos reservatórios de água potável, para recuperarmos a plenitude astral e aural.

Se houver água nos reservatórios.

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