débito com o planeta

débito com o planeta

Marcelo Rubens Paiva

12 de agosto de 2012 | 12h55

Ela não sabe se é relevante a sua contribuição para a redução do efeito estufa ao absorver e fixar o gás carbônico da atmosfera com a vegetação da pequena horta que cultiva na varanda e das samambaias penduradas pelo apartamento, que não podem ser encostadas por ninguém.

Ela, e só ela, quem aduba e rega. Com quem conversa quando está sozinha.

Pensou em arrumar tempo e plantar árvores nos finais de semana na Serra do Mar para zerar o seu débito com o planeta.

O problema é que sabe que não pode simplesmente pegar um carro, parar no acostamento de uma estrada ou do RodoAnel e jogar sementes de árvores da Mata Atlântica, que seriam rapidamente devoradas pela pequena fauna local.

Sem contar que calculou o CO2 lançado à atmosfera pelo deslocamento até lá e descobriu que seu débito só aumentaria.

Ela procura fazer a sua parte.

Eliminou o amaciante da dispensa, apesar da grita conjunta da família, que reparou que a roupa não chega mais macia e perfumada como antes. Amaciantes são os maiores inimigos de rios, lagos e do lençol freático, explicou. Amaciantes e detergentes. Sim, a família lava a louça agora com sabão de pedra e veste roupas ásperas que parecem de papel.

As sacolinhas plásticas estavam abolidas antes mesmo das leis que as proíbem.

Usou fraldas de pano na infância dos filhos? Não. E como se arrepende… Se pergunta onde estão as muitas fraldas usadas que levarão anos para se desintegrar. Se culpa por ter jogado fora sem qualquer consciência ambiental. Descobriu tarde demais que uma fralda descartável leva 500 anos para se decompor, já que possui plástico e polímeros em grande quantidade.

Faz tempo que leva pilhas e baterias a coletores credenciados, usa lâmpadas fluorescentes que gastam menos e tira da tomada equipamentos eletrônicos sem uso que têm relógios ou luzinhas de standby piscando.

Sem contar que as opções de energia dos computadores e monitores de toda família estão configuradas para a maior economia possível.

Sim, os computadores antigos são reutilizados, levados a ONGs em favelas que inserem socialmente crianças pobres.

Doa roupas e sapatos para a igreja do bairro. Livros para bibliotecas de escolas públicas. Os didáticos passam de filho para filho.

Costuma pagar contas sem imprimir boletos, digitando pacientemente o aparentemente infindável número do código de barras.

Garrafas pet são proibidíssimas. Se deprime muito quando vê imagens de enchentes em subúrbios das grandes cidades e repara na infinidade de garrafas verdes, laranjas, transparentes, desses malditos refrigerantes que como abelhas parecem se juntar apenas para entupir bueiros e sujar rios. Se houvesse um movimento para proibi-las da face da Terra e pedir a volta das ecológicas garrafas de vidro ela seria a primeira aderir.

Seu lixo é uma obra de logística e estratégia. Separa em lixeiras diferentes os papéis usados de computador dos de papelão e jornal. Lava latas antes de reciclá-las. O mesmo com garrafas e vasilhames plásticos. Jamais mistura lixo orgânico com reciclável. Um simples guardanapo de papel sujo pela marca de uma boca limpa de molho de tomate causa uma crise. Insiste com a família o que deve ser jogado no lixo orgânico. Gasta momentos preciosos do dia explicando as diferenças entre as lixeiras e o que deve ser colocado onde. Ensinamento que a família custa a absorver, tamanha a complexidade.

Há muito evita frango de bandeja. Não só porque a bandeja de isopor é um dos maiores inimigos do meio ambiente, mas também por causa dos boatos de que a carne branca que vem nela é contaminada por uma infinidade de hormônios de origem desconhecida que são absorvidos pelo nosso organismo e, claro, pela natureza.

Desconfia que a menstruação precoce da menorzinha seja resultado da irresponsabilidade e da falta de controle das granjas da região.

Evita atum em lata que não informa se de suas redes os golfinhos estão salvos.

Carne?

Biológica.

Vinho?

Orgânico.

Frutas e verduras?

Sem agrotóxico.

Apaga as luzes da casa como uma neurótica. Seus filhos vivem dando topadas por causa da escuridão. Estão sempre com a testa roxa ou galos.

Banho, barba e escovar dentes seguem uma rotina detalhada que foi calculadamente planejada como a invasão de um país vizinho para se resgatar reféns das mãos de terroristas.

Da pia, jamais escapa água não utilizada.

Banho: abrir o chuveiro, fechar, xampu, ensaboar, abrir, enxaguar, fechar. Sempre preocupados em fazer xixi no ralo para economizar a água de uma descarga. E que ninguém ouse jogar papel na privada.

Os filhos vão a pé para a escola. Sim, ela escolheu aquela para qual não precisa de transporte que poluiria mais ainda a cidade. Obrigou o marido a trocar a pick-up por um carro a álcool e vendeu o seu carro. Pois descobriu que uma pessoa que utiliza carro a gasolina em seus deslocamentos rodando em média 30 quilômetros diários em área urbana tem um débito de carbono elevado de 1.763 kg/ano. Já o uso de caminhonetes em área urbana resulta num débito de carbono péssimo de 2.781 kg/ano.

Enumera diariamente se faz tudo corretamente.

E se desespera ao ver pela janela a mancha escura que cobre a cidade, a quantidade de carros que entope as ruas próximas, o lixo nas calçadas.

Sente raiva e culpa.

Isso mesmo, aquele sentimento que deprime os incompreendidos: muita culpa. Culpa por não poder fazer mais pelo planeta querido, ameaçado, único. O que a leva a, nervosa, sozinha em casa, acender um cigarro na varanda, fumar até o talo e jogar a bituca no lixo.

Orgânico.

E se lavar toda, já que fuma escondida da família.

Nunca parou para pensar por que fuma eventualmente, gesto que não combina com ela. Certamente para não se sentir à parte numa cidade com tantos vícios. E para não ter pena de si mesma, o que só aumentaria a angústia, a solidão, e a tornaria incapaz de agir. Nem vem: desse cigarrinho ela não abre mão.