Para chorar de tanto rir

Para chorar de tanto rir

Marcelo Rubens Paiva

12 de abril de 2019 | 11h35

Não foram poucas vezes que tive que levantar os óculos para enxugar as lágrimas que Jô Soares causou. De riso.

Lágrimas de riso têm outro gosto.

Lágrimas de riso são felizes. São bem-vindas. São essenciais. E raras.

Rir até chorar é um dos efeitos do show O Livro ao Vivo – de Jô Soares, que estreia para o público hoje, sexta-feira, 12/04, no teatro da FAAP (São Paulo).

Chorar de tanto rir é o que Jô, já com 81 anos, proporciona com a lista grande de histórias (reais ou exageradas? não interessa), algumas escatológicas (eu adoro), que não poderiam ser contadas na TV aberta (especialmente hoje em dia).

Vê-se um Jô feliz, emocionado, rememorando amparado por seu biógrafo amoroso, sempre bem-humorado, Matinas Suzuki Jr. (que também não se contém e dispara a gargalhar).

Histórias em que alguns personagens estavam ontem na estreia, como o fabuloso Juca de Oliveira.

Ele dedica o show a três mulheres fundamentais da sua vida: a mãe, Mercedes, a primeira esposa, Teresa Austregésilo, e Flavinha, o “eterno amor”.

E começa relembrando as piadas que a mãe contava. Claro, de português.

Fala do trote que deu em Ronald Golias, colega do lendário programa Família Trapo, enquanto imitava do outro lado da linha Paulo Machado de Carvalho, o todo poderoso da Record (o Roberto Marinho dos anos 1960, comparou Matinas).

Do programa pioneiro, já na TV Globo, sua casa de muitas décadas, Faça Humor, Não Faça Guerra, e das maluquices daquele que Jô considerava o mais engraçado de todos, Paulo Silvino.

Da fake entrevista do papa para Rádio Jovem Pan.

E de casos que só quem vive a experiência teatral pode contar: como a noite em que o ponto escapuliu da orelha da Bibi Ferreira, dando branco na diva, numa peça em que aliás em estava, Às Favas com os Escrúpulos (de Juca, com direção de Jô), no teatro Raul Cortez.

Começa com Matinas apresentando o convidado: “Em 60 anos de vida profissional e 28 anos de entrevistas, ele fez 14.426 conversas, cerca de 1.300 dias de programas de humor na TV, trezentos personagens, 43 anos de shows, dirigiu 24 peças de teatro e atuou em onze, foram dez filmes como ator e um como diretor, oito exposições como pintor, um show como músico e cantor, quinze programas de televisão como redator, nove livros, contando com esse”.

O show não tem música.

O cenário é composto pelas belíssimas colunas do palco do teatro. Duas cadeiras, uma mesinha, o improviso, a sinceridade e as histórias. E um banner com as capas dos dois volumas da biografia O Livro de Jô.

Matinas de preto, Jô de branco.

O suficiente.

PS> O Livro ao Vivo é uma ideia da produtora As Gêmeas – Conteúdo e Comunicação, de Simone Ruiz (que tem filhas gêmeas). Começou arrasando. Vem mais por aí.